Água: Uma discussão para além do ambientalismo

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Água
Foto: barefootcollege

Em meu texto de estreia quero abordar duas questões essenciais à vida: uma delas é a água e a outra o debate acerca dos direitos humanos. Qual a relação entre as duas?

A resposta reside na afirmação do presidente de uma grande empresa multinacional, líder em venda de água engarrafada, Peter Brabeck-Letmathe, empresário que desde 2005 preside a Nestlé: “A água não é um direito; deveria ter um valor de mercado e ser privatizada”. Brabeck justifica sua tese dizendo que a privatização seria uma forma de a sociedade tomar consciência de sua importância e que tal ato acabaria com o desperdício que temos hoje.

Tão essencial para a sobrevivência da humanidade quanto os recursos naturais existentes no planeta, é a discussão sobre o que é bem e o que é direito. O primeiro é tudo aquilo que pode ser propriedade de alguém, que faz parte de seu patrimônio, dotado, portanto, de valor econômico. Já o segundo, o direito, é algo inalienável, que deve ser garantido pelo Estado e não pode ser cobrado.

O direito humano de acesso à água de boa qualidade significa promoção de saúde pública. Privatizar isso, além de eticamente reprovável, é aumentar ainda mais a desigualdade social, diria até que é uma espécie de “apartheid ambiental”.

É evidente que há desperdício, contudo, perpetuá-lo ou eliminá-lo é uma questão de educação e não de comercialização em bolsas de valores, sujeitas a variações de câmbios e especulações. Aqui também vale uma crítica a simplificação que Brabeck faz: é como se a parte no desperdício de água que impera no mundo fosse de responsabilidade igual de cada um, como se o todo fosse a soma das partes, cada qual igual à outra.

Neste ponto, partilho do posicionamento do Prof. Carlos Walter Porto-Gonçalves da Universidade Federal Fluminense quando afirma que com a questão ambiental estamos diante de questões de claro sentido ético, filosófico, político, que vão além do técnico. Que destino dar à natureza, à nossa própria natureza de humanos? Qual o sentido da vida? Quais os limites da relação da humanidade com o planeta?

Faz-se urgente um debate aprofundado sobre meio ambiente que aborde todos esses aspectos de forma conjunta, só assim, caminharemos rumo a um mundo onde haja respeito entre os seres humanos e a natureza. E neste mundo, em meu entendimento, definitivamente, a água não poderá ser vista como um bem, senão como um bem comum a todas e todos.

Charge

Fontes:

Coordenadoria Regional das Promotorias de Justiça do Meio Ambiente da Bacia do Rio Grande. Disponível em:

http://baciariograndemp.blogspot.com.br/2013/04/privatizacao-da-agua-segundo-nestle.html

PORTO-GONÇALVES, C. W. A globalização da natureza e a natureza da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

Denise Vazquez

Denise VazquezEstudante de mestrado em Engenharia Civil na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), na área de saneamento e ambiente. É formada em Tecnologia e Saneamento Ambiental pela UNICAMP. Paulistana de nascimento, ela diz estar com o coração doído pelos problemas da metrópole mais malcheirosa do país. Depois de desejar ser professora e escritora, escolheu fazer biologia, graduação que nunca cursou. Desde então aceita o apelido de eco-chata.