Você já parou para pensar em quando foi a última vez que um “super” El Niño realmente devastador aconteceu? A resposta não é tão simples quanto parece, e essa confusão entre cientistas revela algo ainda mais preocupante: esses eventos extremos estão chegando com cada vez menos tempo de intervalo entre eles.

A dificuldade em definir o que é um “super” El Niño

Nem mesmo a comunidade científica consegue chegar a um consenso total sobre quando ocorreu o último “super” El Niño. Para alguns pesquisadores, o episódio mais recente desse porte foi o de 2015-2016, considerado o mais intenso já registrado na era moderna. O aquecimento das águas do Pacífico equatorial chegou a cerca de 2,6°C acima da média, o maior valor já observado por instrumentos modernos.

Outros cientistas, porém, incluem também o episódio de 2023-2024 nessa categoria. Esse evento chegou muito perto do limite usado para classificar os fenômenos mais extremos, com temperaturas em torno de 2°C acima da média no auge do fenômeno, beirando o limite que parte da comunidade científica usa para definir um “super” El Niño.

A razão dessa divergência está na falta de uma definição oficial única. “Super El Niño” não é uma categoria científica padronizada. Em geral, cientistas usam esse termo para eventos muito acima da média, mas o limite exato pode variar conforme o critério adotado por cada instituição.

A NOAA, agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos, reconhece o patamar de 2°C como o limiar informal para um El Niño “muito forte” ou “historicamente forte”, enquanto 1,5°C marca a categoria “forte”. A medição é feita pelo chamado Oceanic Niño Index (ONI), que acompanha a temperatura da superfície do mar em uma faixa do Pacífico equatorial chamada região Niño-3.4.

Os intervalos estão diminuindo de forma alarmante

Desde 1950, foram registrados cinco episódios classificados como muito fortes. O que chama atenção dos pesquisadores é como o tempo entre esses eventos vem mudando. Há décadas, o intervalo entre um “super” El Niño e outro chegava a 18 anos. Agora, esse espaço está encolhendo dramaticamente.

Se o evento previsto para este ano atingir a intensidade esperada, o intervalo entre os dois últimos “super” El Niños pode cair para menos de cinco anos. Essa aceleração é um sinal de que algo está mudando nos padrões climáticos globais.

As previsões apontam para um novo evento forte

A NOAA divulgou no começo deste mês uma previsão preocupante: há 96% de probabilidade de que um novo episódio forte ou muito forte se desenvolva até o fim de 2026, com persistência esperada entre dezembro deste ano e fevereiro de 2027.

Projeções recentes do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) chegaram a indicar valores próximos de 3°C acima do limiar usado para classificar eventos muito fortes. Interpretar esse número exige cuidado, porém. A razão é que diferentes centros meteorológicos usam critérios ligeiramente diferentes em seus modelos climáticos.

Por que os cientistas discordam sobre as previsões

Pedro Ivo Camarinha, especialista em Mudanças Climáticas e Desastres e diretor substituto do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explica um ponto fundamental: “A atmosfera é, por natureza, um sistema caótico. Isso significa que pequenas mudanças nas condições iniciais ou mesmo na forma como os modelos climáticos são calibrados podem produzir resultados muito diferentes ao longo do tempo. Por isso, é natural que existam divergências entre as projeções feitas por diferentes centros meteorológicos.”

Essa natureza caótica da atmosfera significa que mesmo pequenas variações nos dados iniciais ou na calibração dos modelos podem levar a resultados significativamente diferentes. Não é falha dos cientistas – é uma característica inerente ao sistema que estão tentando prever.

O que tudo isso significa para o planeta

A possibilidade de um novo “super” El Niño chegando tão logo após o episódio de 2023-2024 representa um desafio crescente para a estabilidade climática global. Esses eventos extremos afetam padrões de chuva, temperaturas oceânicas e correntes atmosféricas em todo o mundo, impactando desde a produção agrícola até a intensidade de furacões e secas.

O encurtamento dos intervalos entre esses eventos sugere que o sistema climático está respondendo a mudanças mais profundas. Enquanto a comunidade científica continua refinando suas previsões e definições, uma coisa fica clara: os “super” El Niños não são mais fenômenos raros e distantes. Eles estão se tornando parte de um novo padrão climático que exige atenção urgente e preparação constante.

Com informações de G1