Poluição sonora pode impedir o crescimento das florestas

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Os efeitos do ruído podem atingir organismos que não têm ouvidos. Parece estranho ler isso, mas, como todos os seres vivos do planeta estão interligados em uma relação de ora dependência, ora mutualidade, a poluição sonora pode impedir o crescimento de algumas florestas. É o que sugere um estudo liderado por pesquisadores americanos ao perceberem que, em uma floresta repleta de pinheiros e arbustos como o zimbro, que fica no Novo México, Estados Unidos, havia muito menos mudas de árvores em locais barulhentos do que em locais silenciosos. A hipótese é a de que o som teria afastado os animais que lá habitam, o que dispersou as sementes.

“Se o ruído permanecer lá por muito tempo, veremos a transição em câmera lenta de uma floresta de pinheiros para mais um cerrado, e perderemos esse importante ecossistema de pinheiros que sustenta tanta vida selvagem”, disse Jennifer Phillips, ecologista comportamental da Universidade do Texas.

A área de estudo é pontilhada por poços de gás, alguns silenciosos e outros com compressores que geram um ruído constante. Isso permitiu que os pesquisadores comparassem locais semelhantes, exceto pelo nível de ruído.
Em áreas que eram barulhentas por pelo menos 15 anos, foram encontradas apenas cerca de 13 mudas de pinheiro e quatro mudas de zimbro por hectare, em comparação com 55 mudas de pinheiro e 29 mudas de zimbro por hectare em áreas tranquilas. O ruído também parecia afetar o resto da comunidade de plantas, com diferentes espécies de flores silvestres e arbustos dominando em locais barulhentos versus locais silenciosos.

As diferenças no crescimento das plantas foram provavelmente causadas por mudanças no comportamento dos animais, já que o barulho pode afastar certos polinizadores, como abelhas, morcegos e mariposas. No caso dos pinheiros e zimbro, o problema provavelmente era a falta de animais para dispersar as sementes. Os pinhões dependem de aves, como os gaios-do-mato, para transportar suas sementes para longe da árvore-mãe. É possível que as raposas e outros animais que dispersam sementes de zimbro também sejam avessos ao barulho.

As diferenças entre os locais ainda não são óbvias para quem os atravessa. Isso provavelmente ocorre porque pinheiros e zimbros têm crescimento lento, com a maioria das árvores maduras nessas florestas tendo mais de um século.

Além disso, os pinheiros só produzem sementes uma vez a cada cinco a sete anos, por isso leva muito tempo para se recuperarem. Em locais anteriormente barulhentos e silenciosos nos últimos dois a quatro anos, os zimbros estavam mais uma vez brotando, mas as mudas de pinheiro ainda eram escassas.

Em outro estudo recente, os pesquisadores demonstraram o impacto do barulho causado pelo tráfego de carros e veículos rodoviários na capacidade dos grilos em diferenciar parceiros em potencial com base em suas canções de acasalamento. Além disso, o som dos automóveis diminui a capacidade dos pássaros de encontrar comida.

Outro estudo descobriu que os pássaros chegaram a mudar seu canto durante o período relativamente silencioso provocado pelas restrições à mobilidade na pandemia do coronavírus. A poluição sonora também impacta os animais marinhos, que têm sua comunicação prejudicada pelo ruído de sonares, radares e veículos de navegação.

A nossa barulheira está realmente atrapalhando. As descobertas sugerem que a poluição sonora, ao contrário de um mero incômodo, é mais um aspecto que deve ser considerado nas políticas de sustentabilidade e preservação do meio ambiente. Vivemos em um mundo muito mais barulhento que em qualquer outra época e, ao que tudo indica, isso também pode representar uma ameaça com o poder de transformar os ecossistemas.