A última fronteira: Transpantaneira

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Para os amantes das duas rodas e da aventura em geral existe uma estrada que é sinônimo de desafio: a Transpantaneira MT-060. Por uma pista de terra onde se cruzam centenas de pontes de madeira, as famosas pontes pantaneiras, ela começa em Poconé – relativamente perto de Cuiabá – e vai até a beira do rio S. Lourenço, em Porto Jofre.

Além do Amazonas, o mais famoso ecossistema brasileiro, o Pantanal também apresenta uma incrível diversidade biológica visível. No Pantanal é possível encontrar diversos jacarés, veados, sucuris, milhares de pássaros e até as onças.

Fernando Montoya Pássaro do Pantanal.

A observação de pássaros é uma modalidade de turismo muito exclusiva e bastante comum na Europa e nos EUA. Os “observadores” estão dispostos a pagar fortunas pelo privilégio de observar, com seus binóculos ou câmeras fotográficas, aves raras que se encontram em ecossistemas como o Pantanal. Armados com roupas anti-mosquito e caríssimos equipamentos ópticos, os “Bird-watchers” farão passeios noturnos e caminharão pela trilha.

As pontes da Transpantaneira

A Gaia e eu precisamos apenas da temível estrada para ficar extasiados com tantos bichos. Observamos jacarés descansando nas bases das 118 pontes de madeira que a compõem. Perdemos as contas de quantas vezes fotografamos alguma ave magnífica ou um veado que pulava em nossa frente. Nosso êxtase era tão grande diante da beleza que nos rodeava que baixamos a guarda e começamos a nos sentir em casa, esquecendo que o Pantanal é, antes de tudo, muito perigoso. É extremamente bonito, mas pode ser letal.

Fernando Montoya Ponte da Transpantaneira.

Os bons pilotos de trilha sabem que o pior obstáculo sempre é o próximo. Que não existe poça ou buraco fácil e que os hospitais estão cheios de pilotos com excesso de autoconfiança. Quando uma estrada tão perigosa quanto essa começa a ficar fácil para mim, me deixo levar pelo entusiasmo e arrisco cada vez mais. Cada ponte pantaneira superada era uma pílula de autoestima. Me senti como um Jean Azevedo, o campeão do Rally dos Sertões, até que a Transpantaneira nos lembrou do nosso minúsculo lugar nela: caídos cheios de barro e com a Gaia atolada na lama no meio do nada.

Calculei mal ao avistar aquele enorme lamaçal. Entramos pela direita (primeiro erro, pois ali o sol tinha deixado o barro mais grudento) e quando perdi o controle tentei chegar até o inexistente acostamento terminando de tombar com o motor colado na beira da estrada (segundo erro, já que a posição da queda não deixava espaço para tentar a levantar). Após 4 tentativas de tirá-la e levantá-la, fiquei exausto e quase sem água. Era uma quarta-feira, às 11 da manhã e com 35 graus. Olé!

O que você faria nas últimas quatro horas da sua vida?

Foram 4 horas sem ver ninguém. Os turistas não viajam nesse horário e a última fazenda pela qual passei estava há muitos quilômetros. Com pouca água e o orgulho na lama (junto com a Gaia) minha única opção era procurar sombra e poupar energia até a ajuda aparecer ou até uma onça parda sair do mato, a uns 50 metros, e ficar te observando sem muito interesse. Quando reparei o que aquela mancha obscura era fiquei dividido entre a admiração pelo magnífico animal e o medo primitivo que ia subindo pelas minhas pernas. Rapidamente voltei na moto e a liguei, esperando que o barulho do motor a assustasse. Duvido que fosse assim, mas pelo menos ela perdeu o interesse e entrou no mato sem se despedir nem olhar para atrás, dando por concluído um dos episódios mais intensos da minha vida e me deixando paranoico com a possibilidade de me atacar por trás. Cadê o orgulhoso piloto quando eu precisava dele?

Fernando Montoya Pantanal.

Por fim, e após uma eternidade apareceu um caminhão com dois anjos salvadores. Tiramos a Gaia da lama e decidi não continuar, apesar de faltar apenas 30 km para chegar em Porto Jofre. Meu psicológico estava arrasado, meu corpo sem energia e eu apenas desejava lugar para me lavar o barro das roupas e da alma. Fiquei 3 dias na Pousada Pixaim (onde os caminhoneiros trabalhavam).

Na beira do rio Pixaim consegui me recompor e fazer alguns passeios de barca e a cavalo pelo Pantanal. Um guia local me confirmou que aquela onça estava atacando o gado da fazenda vizinha e chegamos a ver pegadas dela pelos caminhos. As araras, as garças, as capivaras, os jacarés, e as várias espécies de pássaros foram minha terapia. Após fazer as pazes com o Pantanal voltamos para Cuiabá com a lição aprendida e o espírito cheio de respeito por essa terra maravilhosa. Espero que nunca seja asfaltada essa estrada e que os filhos daquela onça possam viver em liberdade durante muitas gerações!!