O que a escassez pode nos ensinar? Alguns apontamentos sobre a crise hídrica em São Paulo

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Muito já se falou sobre a crise hídrica em São Paulo, diariamente noticias nos informam que o nível do sistema Cantareira cai e pouco resta do volume morto. Porém, o que mais me intriga, é a questão do racionamento da água, medida recentemente adotada pelos municípios de Birigui e Santa Fé do Sul, localizados na região noroeste paulista¹. Mas ainda não adotada pela cidade São Paulo, porque segundo o governador Geraldo Alckmin o racionamento seria uma atitude de irresponsável².

Em minha opinião, não há dúvidas de que o racionamento é necessário, todavia, é importante fazer algumas ponderações a respeito: estudando os usos da água, vemos que 70% ou mais é utilizada pela agricultura, outros 20% pela indústria e os 10% restantes vai para o setor doméstico³. Olhando esses dados, é responsável perguntar: racionamento para quem? Alguns dirão: a agricultura fornece alimentos, a indústria os beneficia e produz também outros bens de consumo, é o setor doméstico que tem mais condições, porque seu uso não tem como fim uma atividade produtiva.

© Depositphotos.com / ginasanders Falta de água.

Outros discordarão, afinal, 10% é a menor fatia do bolo, como responsabilizar quem menos utiliza a água por uma crise hídrica? A aplicação de multas a população que lava uma calçada ou um carro em sua residência é educativa?

Com efeito, é importante recorrer a um dado: há uma grande perda de água no caminho entre a Estação de Tratamento de Água e as residências, cerca de 40%, em Macapá essa perda chega a 70%³, ainda que muito se tenha investido pela SABESP e outras companhias de maior porte para a redução dessas perdas pela tubulação.

Porém, conversando esses dias com um amigo da área, chegamos no conceito da ética ambiental, em que o “faça a sua parte” é de fato necessário, ainda que pouco eficaz em termos de impactos reais. Mas o que isso tem a ver com o racionamento no setor doméstico? Bem, ainda que seja pouco eficaz e bastante injusto, essa medida tem provocado debates na população, é o assunto do momento, e sou questionada quase que cotidianamente por pessoas do meu convívio que não são da área, a minha opinião sobre o problema (incluindo perguntas, como: “Vai chover?”).

Como disse, sou a favor do racionamento. Contudo, sou a favor do racionamento para todos os setores, mesmo o doméstico. Porque isso implica em responsabilizar toda a sociedade e educar a sociedade. Ainda que haja diversas outras questões envolvidas no assunto, nas quais poderia enveredar a discussão, prefiro hoje caminhar por um aspecto pouco debatido em meus textos: o da educação ambiental, que confesso conhecer muito pouco, entretanto, acho de suma importância para a preservação ambiental.

A educação ambiental vai muito além de separar o lixo em casa, mas essas “atitudes conscientes” são consequência prática e merecem atenção. Digo isso porque já ouvi de amigos que tem simpatia pela questão ambiental, mas não utilizam sacolas retornáveis no supermercado e não usam caneca no restaurante universitário por saberem que a economia é insignificante para o ambiente. Creio que alguns leitores pensarão: “- Ah, mas se todo mundo utilizasse sacolas retornáveis e canecas…”. Ainda acho que seriam pequenos demais os efeitos sobre o meio. Visto que a produção controla boa parte do nosso consumo e não o contrário.

Todavia, ainda assim, essas atitudes são importantes. Uma vez que a tão aludida “conscientização ambiental”, não é senão algo que implica em prática diária, é algo ético! Negar essa prática é o mesmo que reconhecer o racismo como um problema a ser combatido na sociedade, mas ter práticas diárias de segregação racial com negras e negros.

Tal qual o combate ao racismo ou machismo, que deve ser feito todo dia, a defesa do ambiente também deve ser. O racionamento então, em todos os setores, propiciaria, além de uma redução efetiva no consumo de água – impactando positivamente os corpos hídricos, os ecossistemas e biomas – num senso de responsabilidade que todas e todos devemos ter com o meio ambiente.

Provando que aquela famosa frase: “Pensar globalmente e agir localmente” se mostra bastante apropriada nos dias de hoje.

FONTES
1. http://noticias.terra.com.br/brasil/cidades/cidades-do-interior-de-sao-paulo-fazem-racionamento-de-agua,0c6d74103a0d7410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html
2. http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/08/racionamento-de-agua-seria-atitude-irresponsavel-diz-alckmin.html
3. http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2014/02/14/por-que-punir-o-consumidor-pelo-desperdicio-de-agua