Existem árvores na Amazônia que viram o Brasil nascer. Elas estavam de pé antes da chegada dos portugueses, antes da formação do Estado brasileiro, antes mesmo de qualquer registro histórico da nossa civilização. Algumas dessas gigantes atingem mais de 80 metros de altura, o que equivale a um prédio de quase trinta andares, e sobreviveram por séculos a tempestades, secas, enchentes e a todas as transformações naturais que a floresta já enfrentou. Mas o que a natureza não conseguiu destruir em centenas de anos, a atividade humana está conseguindo em poucos dias.
A pressão sobre as árvores mais antigas da floresta
Espécies como o Angelim-vermelho, conhecidas por alcançar mais de 80 metros de altura, são especialmente visadas por causa do alto valor comercial da sua madeira. Em muitos casos, a derrubada de um único exemplar representa a perda de séculos de crescimento contínuo, algo que jamais poderá ser recuperado dentro do horizonte de vida de qualquer ser humano.
O avanço do desmatamento na Amazônia, da exploração madeireira e do garimpo ilegal está colocando em risco algumas das árvores mais antigas e ecologicamente importantes da floresta. Estradas, áreas de mineração e frentes de exploração madeireira avançam sobre regiões remotas onde muitas árvores gigantes ainda permaneciam preservadas, fragmentando habitats e alterando o equilíbrio ecológico de uma forma que ainda estamos começando a compreender.
Algumas das gigantes mapeadas recentemente por pesquisadores já não existem mais. Elas sucumbiram à abertura de estradas, ao desmatamento e aos incêndios que se espalham pela região.
Garimpo a apenas um quilômetro da segunda maior árvore da Amazônia
Em novembro de 2025, uma operação do Ibama destruiu equipamentos usados para atividades de garimpo ilegal a apenas um quilômetro de distância da segunda árvore mais alta da Amazônia. Trata-se de um Angelim-vermelho de 85,5 metros de altura, o dobro da média da floresta, localizado dentro de um verdadeiro santuário de árvores gigantes na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru, em Porto Grande, no Amapá.
Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri já haviam mapeado essa árvore em levantamentos realizados em 2018 e 2019. Em outubro de 2024, a Promotoria do Meio Ambiente do Ministério Público do Amapá recomendou que a Secretaria de Meio Ambiente monitorasse a região justamente por causa da ameaça que o garimpo representa para esse santuário florestal.
A Operação Xapiri Karuana do Ibama aconteceu em Laranjal do Jari, no Sul do Amapá, uma área que abriga pelo menos três garimpos ilegais e fica a apenas um quilômetro desse santuário de gigantes.
Por que não podemos perder essas árvores
As consequências da destruição das árvores gigantes da Amazônia vão muito além da perda de indivíduos raros ou impressionantes. Cada árvore centenária dessas funciona como um ecossistema completo em si mesma, abrigando aves, mamíferos, insetos, fungos e diversas espécies de plantas que dependem dela para sobreviver. Quando uma dessas gigantes é derrubada, desaparece também uma complexa rede de interações biológicas que foi construída ao longo de gerações.
Além disso, essas árvores armazenam quantidades enormes de carbono em sua estrutura. Quando são destruídas, parte desse carbono é liberado para a atmosfera, contribuindo diretamente para o agravamento da crise climática. A conservação das árvores gigantes da Amazônia está, portanto, diretamente ligada aos esforços globais de combate às mudanças climáticas, e perdê-las significa também perder uma aliada poderosa na regulação do clima do planeta.
Testemunhas vivas da história da floresta
Essas árvores são verdadeiras testemunhas da história da Amazônia. Muitas delas já estavam crescendo antes mesmo da formação do Estado brasileiro e continuam até hoje desempenhando funções essenciais para a biodiversidade, para os ciclos da água e para a estabilidade climática de toda a região.
Preservar as árvores gigantes da Amazônia não é apenas uma questão de proteger recordes de altura ou exemplares impressionantes da natureza. É uma questão de manter de pé os pilares ecológicos que sustentam a maior floresta tropical do mundo, e com ela, o equilíbrio climático de toda a América do Sul.
Fonte: Greenpeace







