A roça de Chico Bento e o uso de agrotóxicos

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Esses dias passei numa banca de jornais e vi um Gibi do Chico Bento, bateu saudade! Quando criança, minha mãe assinava Turma da Mônica e eu passava horas lendo as revistinhas. Gostava muito das histórias do Chico, pois passei minha infância na cidade de São Paulo, e ficava imaginando o que era viver no campo, parecia muito bom! Poder nadar em rios, entrar na mata, ver animais, dormir em rede, eram vontades que eu tinha.

Porém, neste mesmo dia tive notícia de um triste dado: aproximadamente 3 milhões de pessoas são intoxicadas anualmente pela utilização de agrotóxicos no mundo, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS)¹. Dos inúmeros riscos a saúde humana e ao ambiente, destacam-se os casos de câncer e redução da biodiversidade.

© Depositphotos.com / rudyumans Agrotóxico.

O uso indiscriminado de agrotóxicos iniciou na década de 1940 em todo o mundo, iniciativa conhecida contraditóriamente como “Revolução Verde”, que nada mais é que um modelo de produção agrícola que faz uso da monocultura latifundiária de alta complexidade tecnológica e que por isso, necessita de uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos.

No Brasil, o uso destes produtos foi impulsionado pelo Estado com a modernização conservadora do campo a partir de 1965, que fomentou a expansão agrícola sem reforma social e vem sendo reforçado na década de 1990 até os dias atuais, tornando o país o maior consumidor deste insumo no mundo desde 2008. Além disso, diversos agrotóxicos proibidos pela União Européia e Estados Unidos são ainda permitidos e largamente utilizados no Brasil.

Esse modelo é grande exportador de commodities (produtos intensivos em mão-de-obra, mas com baixo valor agregado, como a soja, cana-de-açúcar e gado) e causa a exploração de recursos naturais, concentração fundiária e expulsão da população campesina, provocando danos ambientais, tais como: drástica redução da biodiversidade do solo e água, contaminação da água superficial e subterrânea e redução da fauna e flora. Já foi detectada contaminação no Aqüífero do Guaraní² (maior reservatório de águas subterrâneas da América do Sul).

Os danos à saúde humana são decorrentes da contaminação dos alimentos, da água e da exposição direta a estes produtos. A amplitude da população que sofre este risco é grande: desde os trabalhadores das fábricas de agrotóxicos e a população em seu entorno, passando pelos trabalhadores do campo que os aplicam e aos demais existentes nas áreas agrícolas, trabalhadores da saúde pública e por último, os consumidores de alimentos contaminados com estes produtos químicos, isto é, quase toda a sociedade. E o pior: a forma de contaminação não é exclusivamente pela ingestão de alimentos, pode se dar também pelo ar, ingestão de água e manuseio de produtos contaminados. Segundo pesquisas realizadas na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), contaminam até mesmo o leite materno¹.

É possível afirmar também que um dos fatores que implica no aumento de casos de câncer no Brasil é o uso de agrotóxicos, segundo uma pesquisadora Instituto Nacional do Câncer (Inca), a estimativa passou de 518 mil novos casos em 2012/2013 para 576 mil casos em 2014/2015¹.

Neste cenário, a artificialização das técnicas produtivas, sustentada por políticas públicas que se subordinam a essa lógica, tem dado muito lucro para os grandes produtores e para a indústria de agrotóxicos e muitos problemas para a população. É aquela velha história: privatização dos lucros e socialização dos impactos.

O que vemos então é que a agricultura cada vez menos se parece com aquele cenário encontrado nos Gibis do Chico Bento, onde o campo era um lugar saudável, feito de pequenos produtores, com ar puro, muita mata e animais, onde na roça tinha respeito a natureza e às necessidades humanas. A vida de Chico Bento pertence cada vez mais ao passado e ao meu ideário romântico do que é viver no campo.

Referências
1. http://www.abrasco.org.br/site/2014/06/especialistas-indicam-que-pelo-menos-30-de-20-alimentos-analisados-nao-poderiam-estar-na-mesa-do-brasileiro/#.U9ZJbZHnDy4.facebook
2. http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/agosto2009/ju439pdf/Pag03.pdf
3. Dossiê Abrasco: Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde http://greco.ppgi.ufrj.br/DossieVirtual/