Greve dos Garis no Rio: Por que os tratamos como lixo?

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E o carnaval chegou! É tempo de ocupar as ruas, desfilar a vida, carnavalizar! E eis que em meio à festa mais popular do país, os profissionais mais discriminados pela nossa sociedade cometem o crime de entrar em greve, deixando a Cidade Maravilhosa abarrotada de turistas, em meio ao lixo. Pois foi esse espetáculo que o carnaval de 2014 nos proporcionou, garis foram às ruas, mas deixaram o lixo para trás. Que absurdo!

O que profissionais que por boa parte da sociedade já são confundidos com o próprio objeto de trabalho tem para exigir do alto de suas vassouras? Já não basta sentirmos o cheiro do indesejado, do rejeitado caminhão de lixo a percorrer as ruas, com seus homens correndo em maratona?

Gari

Mas eles querem 49% de reajuste, que aumento é esse?! É, a estatística impressiona. Mas o que impressiona mesmo é o valor do salário que estes profissionais ganham: R$ 803,00 por mês. O movimento grevista reivindica ajuste salarial de R$ 803,00 para R$ 1.200,00, além de aumento no valor do tíquete-alimentação diário de R$ 12 para R$ 20, pagamento de horas extras para quem trabalhar nos domingos e feriados, como previsto em lei, e melhores condições de trabalho¹. Pois o que me parece absurdo é o sindicato ser contra a greve.

Contudo, esse aumento ainda está muito aquém do salário mínimo necessário, que é de R$2.748,22 proposto pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE).

Quando penso nestes trabalhadores, lembro-me do tempo em que trabalhei num projeto de extensão na universidade com cooperativas populares de resíduos sólidos. O fato é que os resíduos humanos: o lixo, o esgoto, são extremamente ojerizados pela sociedade, ao ponto de que são poucos os que se sujeitam a trabalhar com eles. Porém, quem trabalha no tratamento de esgoto não recebe um tratamento discriminatório da sociedade, talvez porque esta tarefa exija certa qualificação profissional. Entretanto, no caso dos resíduos sólidos – vulgo lixo – a questão é mais complexa do que a simples ojeriza, há um viés social.

Mulheres e homens pobres e com baixa escolaridade assumem o indesejado posto, carregando nas costas além do estigma da sociedade, diversos riscos de saúde por exposições a objetos perfuro-cortantes (como agulhas, cacos de vidro, latinhas de alumínio), embalagens com resíduos tóxicos e/ou perigosos (como sprays, produtos químicos), materiais que ainda contém resíduos orgânicos, conferindo mau – cheiro constante. Além de animais que podem ser perigosos, como ratos, baratas, escorpiões, moscas, etc.

Mulheres e homens pobres e com baixa escolaridade assumem o indesejado posto, carregando nas costas além do estigma da sociedade, diversos riscos de saúde por exposições a objetos perfuro-cortantes, embalagens com resíduos tóxicos e/ou perigosos, materiais que ainda contém resíduos orgânicos, conferindo mau – cheiro constante. Tudo isso em troca de baixos salários, pouco ou nenhum direito trabalhista e a rejeição de boa parcela da sociedade por seu serviço essencial!

Tudo isso em troca de baixos salários, pouco ou nenhum direito trabalhista e a rejeição de boa parcela da sociedade por seu serviço essencial! A coleta, o tratamento e a destinação final dos resíduos sólidos fazem parte importante do saneamento básico, que vai muito além de água e esgoto. O gerenciamento de resíduos evita a transmissão de doenças, contaminação do solo, água superficiais e subterrâneas e até mesmo a poluição atmosférica – já a prática de queimar o lixo é substituída pela coleta. Além disso, a redução, reutilização e reciclagem de materiais, diminui a pressão por recursos naturais e o volume de resíduo enviado aos lixões e aterros torna-se menor.

A quantidade de resíduos sólidos produzida é gigantesca. No Brasil, mais de 180 mil toneladas por dia e em somente 14% dos municípios do país há coleta seletiva² – que coleta resíduos sólidos recicláveis – e isso não significa coleta em 100% do município, ou seja, a quantidade que é enviada às cooperativas é bem menor!

Apesar da coleta de lixo ser uma realidade em praticamente todos os municípios do país, essencial a salubridade do ambiente, o respeito aos profissionais que a realizam, no entanto não é.

As ruas cheias de lixo no Rio de Janeiro estampam a essencialidade deste trabalho. Mas a nossa falta de apoio à greve por outro lado, estampa nosso tratamento a estes trabalhadores, nossa aceitação tácita do lugar do trabalhador pobre: em meio ao lixo.

FONTES:

1. Brasil 247. Garis em greve: prefeito vai varrer sozinho. Disponível em: http://www.brasil247.com/pt/247/rio247/132051/Garis-em-greve-prefeito-vai-varrer-sozinho.htm

2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2008. Rio de Janeiro, 2010.