A educação ambiental atual é superficial?

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iStockphoto.com / Rohappy Salas de aula precisam incentivar os alunos a serem mais críticos.

Os grandes problemas ambientais atuais, como a falta de água e a dificuldade do descarte correto dos resíduos sólidos, me faz pensar de que forma a Educação Ambiental poderia ser mais atuante para mudar este quadro. Há muito tempo que os temas ambientais não são novidade nas escolas e empresas. Mas será que estão sendo abordados da forma correta? Será que estamos tratando esta questão de maneira superficial, sem provocar reflexões mais profundas? Não podemos ser mais críticos e fazer com que o público envolvido também seja mais atuante?

Por exemplo: de quem é a culpa pela falta de água? Do cidadão, do Estado ou ambos? Acredito que não podemos focar em um só ponto, é preciso mostrar a responsabilidade do cidadão, mas também explicar como e de onde vem a água, quais as alternativas para acesso a este recurso. Cada lugar tem sua peculiaridade, e assim poderá tomar decisões com mais autonomia.

Este raciocínio vale para outros temas, como o consumo. Temos que pensar em atividades que façam com que o cidadão – estudante, operário ou empresário – compreenda que o seu modo de consumir influi na vida de outras pessoas, que o desperdício de uns provoca a falta para outros. Porém, não podemos deixar de apontar a responsabilidade dos governos federal, estadual e municipal no que se refere à prevenção e solução dos problemas ambientais.

Mas como fazer com que estes temas saiam da sala de aula e se tornem realmente uma prática diária? Existem várias vertentes da Educação Ambiental. As que mais disputam, digamos, espaço, segundo alguns pesquisadores são a educação ambiental tradicional ou conservadora, que possui uma visão científica e que não aborda as relações de poder que estruturam a sociedade, como a luta de classes e questões culturais e que, por isso, não colaboraria para mudanças que realmente fizessem com que os problemas ambientais fossem superados.

A outra seria a educação ambiental crítica, que, por ser interdisciplinar, não se restringe às ciências, tem por objetivo debater e estimular soluções para os problemas ambientais que surgiram por causa da forma de produção da sociedade e de suas políticas econômicas. Muitas escolas já praticam a Educação Ambiental crítica, como uma alternativa a EA conservadora, que da mais ênfase às questões biológicas e não estimula muito a cidadania.

Mudanças de comportamento e de pensamento 

De um modo geral o que vemos são ações que até se aproximam do tema, como, por exemplo, atividades que estimulem o estudante a jogar o lixo no lixo, mas que não levam a uma crítica sobre a forma de produção dos resíduos. É muito comum em áreas de risco ensinar a comunidade a fazer pluviômetros, mas não questionam sobre o problema da moradia, suas causas sociais e econômicas. Outra atividade também frequente é fazer artesanato com material reciclado, mas sem trabalhar a ideia de redução ou reutilização dos materiais para que diminua o consumo e, consequentemente, provoque a conservação dos recursos naturais.

Devemos levar em conta que a culpa nem sempre é do Educador. É sabido que ainda temos grupos da sociedade que não têm interesse que a população adquira conhecimentos mais profundos, pois sabem que serão mais cobrados. Falar em redução do consumo pode levar à ideia de desemprego, pois também pouco se fala sobre as formas de alternativas de renda mais sustentáveis.

Quem quiser mesmo fazer uma Educação Ambiental mais crítica precisa saber que os conflitos sociais existem e estão bem próximos, a EA não pode ser apenas uma transmissão de informações para que o cidadão mude de comportamento, sem que se perceba a realidade cultural, social e até econômica do cidadão. Saber que os conflitos pelo acesso aos recursos naturais são uma realidade é imprescindível ao educador e é necessário coragem para que possam ser enfrentados.

Não dá mais para ficar “em cima do muro” só pedindo ao cidadão para diminuir seu impacto ambiental se o próprio Estado não consegue fazer a sua parte. É preciso que os educadores sejam capacitados para colocar temas ambientais em debates mais profundos, tratar a desigualdade social como um dos principais problemas ambientais. Por que uns têm acesso à água potável e saneamento e outros não? É preciso instigar a dúvida no aluno, fazer com que compreenda que, como cidadão, pode conseguir as respostas e as soluções.

Então, se você pratica uma Educação Ambiental mais crítica, no qual o cidadão consegue perceber como as relações culturais e econômicas de nossa sociedade influenciam os problemas ambientais, conte aqui sua experiência. Assim você estará colaborando para que suas práticas de sucesso sejam um incentivo para que outros comecem a trabalhar desta forma e os resultados positivos para o meio ambiente sejam alcançados mais rapidamente.