Uma descoberta alarmante coloca em xeque a qualidade da água que chega às torneiras catarinenses. O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) revelou que 155 municípios – mais da metade do estado – têm águas potáveis contaminadas por agrotóxicos. Entre os 42 tipos identificados, cinco são substâncias banidas no Brasil.

O veneno que chegou às torneiras

A investigação do MPSC, realizada através do Centro de Apoio Operacional do Consumidor, expõe uma realidade preocupante: o uso indiscriminado de agrotóxicos contaminou não apenas os recursos hídricos, mas também o solo e o ar catarinense.

Entre as substâncias encontradas estão cinco agrotóxicos banidos pela Anvisa: benomil, carbofurano, haloxifobe metílico, metolacloro e molinato. A presença desses produtos proibidos na água potável revela falhas graves no controle e fiscalização do uso de pesticidas no estado.

Mapa da contaminação

O levantamento, baseado em análises de águas tratadas em laboratórios credenciados entre 2018 e 2023, mostra que a contaminação se espalha por todas as regiões de Santa Catarina, com intensidades diferentes:

  • Sul: 35 de 46 municípios (76,1%)
  • Grande Florianópolis: 12 de 21 municípios (57,1%)
  • Oeste: 63 de 118 municípios (53,5%)
  • Vale do Itajaí: 24 de 54 municípios (44,4%)
  • Norte: 11 de 26 municípios (42,3%)
  • Serra: 10 de 30 municípios (33,3%)

Vale do Itajaí: a região mais crítica

O Vale do Itajaí emergiu como uma das regiões mais preocupantes. Em Imbuia, foram encontrados 17 pesticidas diferentes entre 2022 e 2023, incluindo dois ativos proibidos desde 2019. Um fungicida foi detectado em concentração considerada elevada pelos especialistas.

Ituporanga apresentou um cenário igualmente grave: dos 23 ingredientes ativos encontrados, nove estavam acima de 1 micrograma por litro (µg/L), limite que pode indicar concentrações acima do permitido, dependendo da substância.

Enquanto outras localidades identificaram entre um e três tipos de resíduos, esses municípios do Vale do Itajaí revelam uma contaminação múltipla e complexa, indicando uso intensivo e descontrolado de agrotóxicos na região.

Além da água: contaminação total

O estudo revela que a poluição por agrotóxicos não se limita aos recursos hídricos. Solo e ar também foram afetados, criando um ciclo de contaminação que permeia todo o ambiente. Essa contaminação sistêmica significa que os agrotóxicos estão presentes em múltiplos compartimentos ambientais, aumentando a exposição humana e dos ecossistemas.

Os riscos para a saúde pública

A presença de agrotóxicos na água potável representa uma ameaça silenciosa à saúde pública. Essas substâncias podem causar diversos problemas de saúde, desde irritações agudas até doenças crônicas como câncer, problemas neurológicos, distúrbios hormonais e reprodutivos.

A situação é ainda mais grave quando consideramos que cinco das substâncias encontradas são banidas no Brasil justamente por seus riscos elevados à saúde humana e ambiental. Sua presença na água potável indica não apenas contaminação ambiental, mas também possível uso ilegal desses produtos.

A resposta institucional

Diante dos resultados alarmantes, o MPSC, em parceria com a Diretoria de Vigilância Sanitária de Santa Catarina e a Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, planeja criar grupos de trabalho intersetoriais.

Esses grupos contarão com equipes de saúde, assistência social, agricultura e proteção ao consumidor, focando na conscientização sobre o uso adequado de agrotóxicos pela população. É um primeiro passo importante, mas que precisa ser acompanhado de medidas mais rigorosas de controle e fiscalização.

Um problema que exige ação urgente

Os dados revelados pelo MPSC expõem uma crise de saúde pública e ambiental que demanda ação imediata. A contaminação da água potável por agrotóxicos, especialmente substâncias banidas, não pode ser tratada como um problema menor ou de longo prazo

É necessário:

  • Intensificar a fiscalização do uso de agrotóxicos
  • Implementar programas de monitoramento contínuo da qualidade da água
  • Investir em tecnologias de tratamento mais eficazes
  • Promover práticas agrícolas sustentáveis
  • Responsabilizar quem usa produtos banidos

O direito à água limpa

Ter acesso à água potável livre de contaminantes é um direito básico. Quando mais da metade de um estado bebe água contaminada por agrotóxicos – incluindo substâncias banidas – estamos diante de uma violação sistemática desse direito fundamental.

A situação de Santa Catarina serve como alerta para todo o país. É urgente repensar nosso modelo agrícola e implementar medidas efetivas para proteger nossos recursos hídricos e, consequentemente, nossa saúde.

Cada gole de água contaminada representa não apenas um risco individual, mas um sintoma de um sistema que priorizou a produtividade agrícola em detrimento da segurança ambiental e da saúde pública. É hora de mudar essa equação.

Com informações de CNN Brasil