Copenhagen: A cidade que se locomove sobre duas rodas

A capital da Dinamarca apostou nas bicicletas e ciclovias como alternativa de mobilidade urbana com emissão zero de CO2

30 de outubro de 2013
publicado por
Ingrid Araújo

 

Infográfico Cidades Sustentáveis - Copenhagen

Planejamento de mobilidade urbana faz parte da maioria das cidades europeias. Em Copenhagen, capital da Dinamarca, com mais 500 mil habitantes não é diferente. É comum ver por toda a parte pessoas usando a bicicleta não só para esporte ou lazer, mas principalmente para ir ao trabalho, supermercado e realizar tarefas do cotidiano. A sétima cidade da série de Cidades Sustentáveis optou como alternativa de plano sustentável este meio de transporte que não agride o meio ambiente e ainda investiu em energia limpa vinda da força dos ventos.

Copenhagen sempre se preocupou com a população e o meio ambiente, a prova desta atenção foi o investimento de mais de US$ 40 milhões para a construção dos 346 km de ciclovias que se estendem pela capital, o que a prefeitura considera de centro expandido. A população central também conta com as “autoestradas cicláveis”, ciclofaixas que os conectam até municípios vizinhos. Uma delas é a Farum, que liga a região metropolitana até Albertslund (a oeste da capital). Com mais de 17,5 km a ciclovia fica disponível para mais de 350 mil moradores.

Além de não poluir a atmosfera, as bicicletas são uma opção de transporte rentável para a população. Outra vantagem de usar este transporte barato na capital são os estacionamentos gratuitos criados pela gestão da prefeitura. E o costume de andar sobre duas rodas não faz parte somente de uma tendência global de sustentabilidade. A população já se locomovia desta maneira desde a década de 1930. Só na região central, por exemplo, entre Valby, Vesebro, Ostebro e Norrebro, atualmente o número chega a 55% das viagens pelas ciclovias. Ao todo, mais de 40% dos dinamarqueses percorrem 1.210 km por dia.

Todas estas transformações começaram em escala crescente dentro da administração municipal. Em 2004, as primeiras estratégias de sustentabilidade foram com o Plano Ambiental e de Transportes. Em seguida, em 2009, foi a vez do Plano de Mudanças Climáticas de Copenhagen e o Plano de Gestão de Resíduos. Em 2011, a natureza teve uma atenção maior com o lançamento do “Espaço para a Natureza – Uma Estratégia para a Biodiversidade”, um plano de criação e revitalização de áreas verdes.

Reconhecimento Mundial

Estes empenhos renderam à cidade o 7º lugar no Mother Nature Network, em 2012, premiação americana que reconhece os diversos projetos ligados à sustentabilidade para a sociedade. Através das iniciativas e medidas sustentáveis, Copenhagen já ganhou indicação ao Green Capital Award 2014 – Prêmio de Capital Verde da Europa –, que destaca o desempenho da gestão em poupar recursos naturais e estabelecer estratégias de sustentabilidade entre governo e a sociedade. A metrópole foi reconhecida também pela Economist Intelligence Unit no ranking das 25 melhores cidades do mundo para se viver. Copenhagen está em 22º lugar por apresentar bom desempenho em 30 critérios divididos nas categorias de transporte, qualidade da água, saúde, ambiente, dentre outros.

Ciclovias em Copenhagen

As ciclovias da cidade são amplamente utilizadas pela população. Foto: justthetravel

Ainda como meta futura, até 2025 a prefeitura quer levar mérito no plano de extensão das ciclovias e estender as viagens nas áreas periféricas da cidade. “Além de diminuir as emissões de carbono, essa mudança é economicamente vantajosa”, disse Adreas Røhl, engenheiro técnico da secretaria de transportes ao portal Mundo Sustentável.

Ciclovia em mal estado

Por mais que a gestão siga a receita de combinar orçamento com planejamento estratégico e trazer resultados no setor de transportes, a capital ainda esbarra em problemas de infraestrutura das ciclovias. Alguns trechos se encontram esburacados, o que prejudica a passagem dos ciclistas.

Diante da questão, a prefeitura firmou o compromisso, em abril deste ano, de recapear, principalmente, as ciclofaixas paralelas às estradas que ligam municípios vizinhos. “O caminho está planejado para se tornar uma autoestrada, no entanto, as câmaras municipais em Frederiksberg, Copenhagen, se comprometeram a melhorar a infraestrutura também para ciclismo”, disse vice-prefeito de Copenhagen para assuntos técnicos e ambientais, Ayfer Bayka, ao jornal The Copenhagen Post.

Estacionamento coberto da prefeitura de Copenhagen

Estacionamento coberto da prefeitura de Copenhague. Foto: akatu

Outro ponto a ser observado na construção das autoestradas é a implantação de gestão aplicada em iluminação, segurança e postos de manutenção de bicicletas. Estas medidas são consideradas de extrema importância para a Dr. Roberta Kronca, professora da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da USP que comenta sobre a estrutura dessas ciclovias da capital dinamarquesa.

A atenção pela mobilidade sustentável pode ser vista no estacionamento público de bicicletas que possuem uma estrutura coberta e extremamente organizada.

Redução dos índices de gás carbônico

Em agosto de 2009, a câmara municipal aprovou projetos para combater os efeitos negativos da alteração do clima na atmosfera e no meio ambiente. Uma das metas do Plano de Mudanças Climáticas de Copenhagen é reduzir as emissões dos gases de efeito estufa em 20% até 2015, em relação aos índices de 2005.

O Plano prevê também que a cidade não emita nada de carbono até 2025. Para tornar isso possível, o governo investiu em parcerias com empresas privadas, universidades e organizações que juntas organizam o “crescimento verde”, fórum de discussão sobre como atuar com a sustentabilidade nas áreas da educação, trabalho, consumo, construção, transporte e etc. No Plano, as administrações vão estudar a quantidade de CO2 que cada setor emite e estabelecer metas de redução para cada um deles.

Bicicleta e energia eólica

A utilização de transportes que não emitem poluentes e a produção de energia eólica são algumas das alternativas da cidade. Foto: visitcopenhagen

Despoluição da água

Até o ano de 1961 era comum o fluxo de água dos rios se misturarem à rede de esgoto. Na época, o entorno do canal de Københavns Havnebade era local de despejo de lixo e de restos de produtos químicos das fábricas. Quando chovia forte, as galerias de águas pluviais enchiam demais, se misturavam ao esgoto e toda essa sujeira era despejada nos canais, assim como na maioria das cidades brasileiras.

“Era impensável usar essa área para lazer e recreação”, diz Jan Rasmussen, do Department of Parks and Nature (Departamento de Parque e Natureza) da prefeitura em entrevista para a Natalia Garcia, organizadora do Cidades para as Pessoas, projeto de pesquisa sobre planejamento urbano pelo mundo. Como solução, em 1991, foi aprovado um plano para tratar a água dos canais e ainda remover a área industrial. Desde então todas as galerias de águas pluviais foram reformuladas e não se misturam mais ao esgoto.

Piscina pública

Graças à despoluição dos rios, galerias pluviais e revitalização do entorno, o canal Københavns Havnebade fez parte de um projeto da prefeitura criado em 2005, que transformou parte dele em uma piscina pública, um local próprio para o lazer da população.

Piscina pública de Copenhague

Área antes poluída, agora virou espaço de lazer e diversão para os moradores. Foto: theurbanearth

Reciclagem

Em 2009, o Plano de Gestão de Resíduos da prefeitura foi criado para destinar corretamente a demanda de lixo produzido por cada habitante, que era de 673 kg. De acordo com o projeto, metade dos resíduos é reciclado e os outros 50% incinerados. E resultado é visto nos números: em 2001, a taxa de reciclagem era de 36,4%; já em 2010 os índices subiram para 42,3%, representando um crescimento total de 5,8% ao ano.

Fazenda eólica

A demanda de energia produzida a partir da força dos ventos já era um projeto antigo. Em 1970, a Dinamarca se tornou pioneira na energia eólica. Copenhagen só mostrou que era capaz de produzir energia elétrica pelo projeto da fazenda eólica apresentado ao governo em 1993. Middelgrunden, complexo de energia eólica, começou a ser construída em 2000 com um capital de € 23 milhões e levou sete anos para ser finalmente fundada.

Middelgrunden

Vista do mar do complexo de energia eólica de Middelgrunden. Foto: andjohan

Em 2007, a usina offshore – tecnologia que acopla as turbinas em bases flutuantes distantes da plataforma – já produzia 17,5% da demanda de energia para mais de 40 mil moradores. A meta é que a fazenda consiga, até 2050, abastecer 50% do país.

Resultado da gestão sustentável

Em termos de revitalização, até 2011 Copenhagen tinha criado dois Pocket Parks (parques pequenos) no meio da região metropolitana, que representam aproximadamente 25% da área total da cidade composta de árvores e plantas, praticamente 42,4 m² de área verde à disposição para cada cidadão.

Sobre a responsabilidade ambiental das empresas, seis dos sete departamentos municipais possuem dois terços de instalações com gestão ambiental certificadas pelo ISO 14001.

Mais que premiações mundiais, Copenhagen conseguiu também formar o hábito de alimentação saudável na vida dos dinamarqueses. Aproximadamente 68% das refeições das lanchonetes e instituições têm alimentos orgânicos. Diante destas e das demais iniciativas de governo, não há como negar que a administração se empenhou ao máximo para basear a uma estrutura nos moldes de uma gestão sustentável que atingiu praticamente todas as esferas da sociedade.

Agora que você já conheceu a cidade das bicicletas, um exemplo de mobilidade urbana, que tal conhecer outro município europeu que é sinônimo de utilização consciente dos recursos naturais, operando apenas com fontes renováveis? Aguarde e confira a última matéria do Especial Cidades Sustentáveis no dia 06 de novembro.