Transamazônica: Uma estrada a caminho do nada

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O desmatamento é um problema que ocorre em várias partes do mundo, seja pelo crescimento populacional ou pelo aumento das demandas de atividades produtivas, gerando um impacto ambiental catastrófico. As florestas são a nossa herança ambiental, um símbolo de vida, que também está representado em nossa bandeira.

Como uma área tão grande como a Amazônia pode ter vários quilômetros desmatados por dia, como se fosse uma terra que não pertence a ninguém e que parece que não possui nenhum valor?

Transamazônica
Foto: j_gil

O avanço do desmatamento é ocasionado por diversos motivos, a abertura de áreas para a produção agrícola e de pastos para criação de gados, para a extração ilegal de árvores, etc. Analisando a área desmatada e para qual será a finalidade, entendemos que não importa qual é a área que está sendo desmata e qual o valor ambiental dela, mas o que importa é o valor do “futuro investimento”.

Na década de 70 foi dado início a uma “obra faraônica” que ajudou a aumentar o índice de desmatamento (antes dessa época a mata era considerada “preservada” e “quase intocada”), a criação da Rodovia Transamazônica. O projeto foi aprovado pelo presidente Emílio Garrastazu Médici (1969 a 1974) e intitulado de “obra faraônica” devido às suas proporções gigantescas. A idéia principal do projeto era interligar Cabedelo, na Paraíba, até a cidade de fronteira de Benjamin Constant, no Amazonas (e de lá, pelo Peru e Equador, até o Pacífico), mas seu ponto final foi em Lábrea, 687 km antes. Se fosse terminada ela seria um grande escoadouro da produção brasileira para o Pacífico.

Os nossos governantes sonharam alto, pretendiam alocar na região florestal cerca de 500 mil colonos (esperava-se ao menos o dobro de pessoas previstas que provavelmente seriam atraídas para a região). Alocar toda essa multidão por todo o trecho da estrada nos dava a idéia de “filme de ficção” do planejamento urbanístico brasileiro.

O governo implanta sonhos surrealistas e expectativas exageradas para encher “os olhos do povo” e muitas famílias pobres que não vêem esperanças onde estão se alimentam das esperanças falsas que estão mascarando a corrupção e a falta de transparência do governo.”

Os moradores iriam habitar em agrovilas que ficariam a cada 10 km da rodovia, esses planejadores imaginavam que cada agrovila teria entre 48 e 64 casas, escola primária, capela ecumênica, armazém, clínica e farmácia. Havia até tamanho definido para cada terreno (de 20 x 80 m a 25 x 125 m). O pensamento surreal e a tática de trazer os moradores para as agrovilas não deu certo, atualmente existem cerca de 20 agrovilas espalhadas pela Transamazônica e esses moradores não desenvolveram em nada, vivem em meio ao pó (pois a maior parte da rodovia ainda é de terra) e a pobreza. As famílias que se alojaram acreditando nas promessas do governo vivem perdidas, com dificuldade de moradia e emprego. E sem fiscalização e apoio do governo, as famílias vivem a amargura de terem largado algo sólido para trás e alimentar o sonho do governo que não passou de ilusão.

Hoje em dia não é muito diferente, o governo implanta sonhos surrealistas e expectativas exageradas para encher “os olhos do povo” e muitas famílias pobres que não vêem esperanças onde estão se alimentam das esperanças falsas que estão mascarando a corrupção e a falta de transparência do governo.

Para construir os mais de 4.000 km (que corta parte da floresta amazônica), o governo investiu cerca de 1,5 bilhões de dólares na época, a estrada foi entregue em tempo recorde, mas continua inacabada. A era da construção civil dos 70, trouxe um corte no coração amazônico e nos leva a crer que o governo desde as épocas passadas não tem o planejamento alinhado com as coordenadas de um possível avanço e, além de trazer prejuízos para o meio ambiente, trouxe inclusive à facilitação para adentrar na floresta amazônica e invadir terras para criar pastos e desapropriar os índios e famílias ribeirinhas.

A rodovia que atravessa pelo menos sete estados gerou outras oportunidades negativas, pois o traçado da rodovia auxilia a devastação da floresta de forma mais acelerada. A ligação do desmatamento com a rodovia é uma verdade explícita. Se a Amazônia fosse realmente preservada e se houvesse “boa vontade” dos governantes, não deveria ter um acesso amplo de estradas que só aumenta a extração ilegal de recursos naturais e a falta de vigilância e fiscalização do governo.