Política de financiamento verde e o Soft Power chinês na América Latina

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Um artigo de Michelle Chan publicado no relatório “China Overseas: looking beyond the headlines” do Think Tank chinês “China Dialogue” (中外对话) aborda uma política de financiamento verde das agências financeiras chinesas, chamada Green Credit Directive (Diretiva sobre Crédito Verde). Esta diretiva foi lançada em 2012 e reflete em linhas gerais a necessidade dos bancos avaliarem riscos sociais e ambientais dos empréstimos a projetos e empresas chinesas.

Depositphotos Apesar de representar um avanço dentro da temática ambiental, a política de crédito da China ainda peca pela fraca verificação de impactos dos projetos.

Com relação à diretiva chinesa ela está entre uma das mais avançadas políticas de financiamento verde. Chan compara as ações dos Estados Unidos e Europa que não possuem políticas de análise dos impactos ambientais e sociais dos empréstimos realizados por suas instituições financeiras.

Há duas controvérsias nesta política de crédito ambiental da China, apesar do avanço dentro da temática para um dos países que mais utiliza recursos naturais sem controle. Primeiro está relacionado à auditoria do financiamento. A verificação dos impactos ambientais e respeito às prerrogativas do contrato para ser realizado o empréstimo ainda é fraca e sem padrões internacionais. A segunda controvérsia está relacionada às empresas chinesas extrativistas. Chan expõe o seu atraso na internacionalização dos seus negócios ao inserir projetos de riscos ambientais, sociais e políticos.

Apesar dos dois pontos levantados anteriormente que minam o investimento sustentável chinês, tal política é de extrema importância para uma nova fase nas relações externas do país. O “Go Global”, incentivado pelo governo às empresas chinesas a partir de 2001, motivou a entrada de capital chinês de forma massiva na América Latina e a participação em projetos de grande porte com empresas de agricultura, mineração, petróleo, gás, construtoras e logística. Esta busca por projetos em áreas específicas fez a China passar o Banco Mundial em financiamento.

Logo, as empresas chinesas ganharam território e junto com elas os problemas ambientais relacionados aos impactos dos seus projetos. Na América Latina, em especial, todos os projetos com participação chinesa estavam relacionados a problemas socioambientais e a ineficiência de reverter a situação corroborava cada vez mais para gerar tensões e questionamentos sobre a eficiência delas. O caso exposto por Chan é da mineradora Ecuacorriente que assinou um acordo com o Governo Equatoriano para exploração da mina de Mirador. Não demorou muito para virar palco de manifestações e ações judiciais sobre os impactos do projeto na água, biodiversidade e povos indígenas da região.

Pequim percebeu que a premissa do soft Power – que diz que não só o governo, mas sua matriz empresarial deve seguir padrões globais para aceitação de sua entrada em novos mercados – poderia ficar cada vez mais abalada e arriscaria a sua politica externa de construção da imagem de potência sem utilização da força. A Diretiva sobre o Crédito Verde surge não só para acrescentar mais força a temática sustentável no setor financeiro e empresarial, mas também para elevar as exigências de uma visão em um horizonte distante com pensamentos voltados no futuro não só da China, mas de seus clientes globais.