Uso de agrotóxicos aumentou 162% no Brasil em 12 anos

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iStockphoto.com / Kalulu O Brasil assume a posição de primeiro consumidor mundial de agrotóxico desde 2009.

Com o aumento da população mundial nos últimos séculos, muitas técnicas foram testadas e utilizadas no campo para que a produção de alimentos conseguisse suprir tamanha demanda. Empresas de pequeno e grande porte passaram a utilizar produtos de origem química ou biológica (agrotóxicos) para garantir um cultivo mais acelerado, livre de pragas e com a possibilidade de produção de alimentos mais vistosos e grandes, deixando de lado o crescimento natural que cada espécie de planta ou fruta precisa para chegar ao ponto ideal de colheita.

O problema está justamente no uso de substâncias que não são naturais e que podem prejudicar diretamente a saúde das pessoas que consomem tais alimentos. No Brasil, por exemplo, somente nos últimos 12 anos, houve um aumento de 162% no uso de agrotóxicos. Outro dado alarmante é que, segundo os dados publicados no “Dossiê Abrasco – Um Alerta sobre os Impactos dos Agrotóxicos na Saúde”, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o setor agrícola nacional comprou mais de 820 mil toneladas de agrotóxicos no ano de 2012. E muitos desses produtos são proibidos em outros países.

Segundo Paulo Petersen, diretor da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), desde 2009 o Brasil assumiu a posição de primeiro consumidor mundial de agrotóxico. O consumo daria 5,5 quilos por brasileiro por ano.

Segundo o pesquisador explicou à Agência Brasil, o aumento no uso de agrotóxicos no país está ligado diretamente ao crescimento de monoculturas e de produtos transgênicos. “Ao contrário do que vinha sendo propagado quando eles [transgênicos] foram lançados, que permitiriam que o uso de agrotóxico diminuísse, porque seriam resistentes às pragas, o que se verificou foi o oposto. Não só está usando mais, como está usando agrotóxicos mais poderosos, mais fortes. Nós fomos levados a importar em regime de urgência determinados agrotóxicos que sequer eram permitidos no Brasil para combater pragas na soja e no algodão transgênicos, que foram atacados por lagartas”.

Liberado no Brasil, proibido em outros países

O estudo publicado também alerta que, dos 50 princípios ativos mais utilizados em agrotóxicos presentes em terras brasileiras, 22 são banidos em outros países. “Estamos em uma situação de total descontrole, o Estado não cumpre o processo de fiscalização como deveria e a legislação para o uso de agrotóxicos também não é cumprida”, disse Petersen.

Uso de agrotóxicos x problemas de saúde

Outra questão que é sempre discutida (com razão) sobre o uso de agrotóxicos no campo é a relação destes com alguns problemas de saúde. Somente entre 2007 e 2014, por exemplo, foram registrados em todo o Brasil, 34.147 casos de intoxicação por agrotóxicos. Entre os problemas mais comuns estão: câncer, problemas cardíacos, disfunção fisiológica, malformação do feto e problemas neuronais. O relatório também considerou dados publicados pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) a respeito dos mesmos casos.

Perspectiva

O Dossiê Abrasco apresenta ainda um capítulo inteiramente dedicado ao caminho que o agronegócio deve seguir para se tornar mais saudável e sustentável nos próximos anos. “Esse capítulo apresenta várias experiências, de diferentes regiões do Brasil, que demonstram que é perfeitamente possível ser economicamente viável, ambientalmente sustentável, benéfico à saúde pública e produzindo em quantidade e qualidade”, afirmou Petersen.

Entre as medidas defendidas pelo estudo, destaque para técnicas que visam à instalação de uma Política Nacional de Agroecologia, substituindo o atual modelo de financiamento público ao produtor. Também compreende maiores debates internacionais sobre o tema, uma maior distribuição do sistema alimentar em todo o mundo e ainda o banimento total de agrotóxicos proibidos em outros países e que são utilizados no Brasil. O Dossiê Abrasco traça metas para revisão das medições de potabilidade da água (para limitar substâncias químicas) e ainda garantir a proibição da rotineira e prejudicial pulverização aérea de agrotóxicos.