Terra perdeu um terço das terras aráveis ​nos últimos 40 anos, aponta estudo

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iStockphoto.com / numxyz O uso sistemático de áreas para plantação não permite que essa terra recupere seus minerais.

A natureza é a principal responsável pela evolução humana ao longo dos milênios, seja pela estabilização do clima, que permitiu a explosão da nossa raça, seja pelos recursos disponíveis para nos alimentarmos. Tanto é verdade que muitos especialistas defendem que o aumento da população mundial só foi possível após nossa compreensão de que é possível sobrevivermos e evoluirmos com o que o meio ambiente “oferece”, como, por exemplo, terras férteis para cultivo dos mais variados tipos de alimentos.

Todavia, este crescimento populacional (principalmente nos séculos XIX e XX) provocou um fenômeno que vai contra todo este princípio: a degradação da própria natureza. Segundo recente pesquisa da Universidade do Centro Grantham de Sheffield para Futuros Sustentáveis, somente nos últimos 40 anos, o planeta perdeu 1/3 de todas as terras aráveis. Poluição e erosão do solo aparecem como os dois principais vilões.

Esse ritmo de destruição é muito superior ao de processos naturais que “arrumam” o solo, por isso estamos em déficit. Somente no caso da erosão do solo, o ritmo é 100 vezes maior que a formação do solo, ou seja, levaria 500 anos para 2,5cm de terra se recuperar. O uso sem controle de fertilizantes e lavouras contínuas nos campos também impactam na qualidade do solo ao redor do mundo.

“Ao nos lembrarmos da poeira da década de 1930 na América do Norte, percebemos que estamos caminhando para a mesma situação se não fizermos alguma coisa. Estamos aumentando a taxa de perda e reduzindo dos solos seus componentes minerais, assim como criando solos que não estão aptos para qualquer coisa, exceto para plantação. Os solos são assoreamentos de sistemas fluviais – se você olhar para a enorme mancha marrom no oceano, onde a Amazônia deposita terra, você percebe o quanto estamos acelerando esse processo. Precisamos fazer algo sobre isso para inverter este declínio”, afirmou o professor de biologia da planta e do solo na Universidade de Sheffield, Duncan Cameron, ao jornal The Guardian.

Como chegamos a este ponto?

Para os responsáveis pela pesquisa, no caso da erosão do solo, o motivo principal é a utilização contínua e acelerada do solo para cultivo e colheita. O que acontece é que quando uma terra é repetidamente utilizada para plantação, ela é mais exposta ao oxigênio e libera mais carbono, interferindo na capacidade de absorção de minerais durante este processo.

Esta perda de capacidade interfere também no armazenamento de água no solo, o que neutraliza o seu papel como um tampão para as inundações e uma base frutífera para as plantas. Solos degradados ainda são mais vulneráveis ​​a eventos climáticos alimentados pelo aquecimento global. O desmatamento, que remove árvores, também é prejudicial para a saúde do solo.

Qualidade do solo x demanda por alimentos

Parte da pesquisa apresentada na COP21 em Paris, evento mais importante sobre mudanças climáticas em 2015, alertou que o declínio na qualidade (e quantidade) dos solos ocorreu justamente em uma era na qual a demanda global por alimentos está rapidamente aumentando. A estimativa é que precisaremos produzir 50% mais alimentos até 2050 para que toda população seja abastecida, isto em uma perspectiva de 9 bilhões de pessoas. Em países em desenvolvimento, como Brasil e Índia, esta demanda será ainda mais necessária segundo a Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas.

Na tentativa de melhorar a qualidade do solo ainda disponível, os pesquisadores da Universidade de Sheffield apresentaram alternativas: utilizar nutrientes reciclados de esgoto, biotecnologia para livrar as plantas da dependência de fertilizantes e culturas com áreas de pecuária rotativa para aliviar a pressão sobre a terra arável. Pesquisa confirma ainda que 30% das terras próprias para cultivo de alimentos são utilizadas exclusivamente para criação de bovinos, frangos e suínos.

“Precisamos de uma solução radical, a reengenharia do nosso sistema agrícola, assim como tomarmos terras da produção por um longo tempo para permitir que o carbono do solo se reconstrua e torne-se estável. Temos lotes de terra que estão sendo usados para pastagem pelas indústrias de carne e produtos lácteos. Em vez de manter separados, é preciso colocá-los em rotação”, afirmou Cameron.

O pesquisador fez ressalvas sobre o papel dos agricultores, principalmente os de menor capacidade. “Não podemos culpá-los neste momento. Precisamos oferecer a capitalização para ajudá-los ao invés de impormos uma nova política totalmente diferente do que estão habituados há décadas. Além disso, temos a tecnologia e só precisamos de vontade política para nos dar uma chance de resolver este problema”, concluiu.