O inverno começou oficialmente no hemisfério sul no último domingo e, com ele, as temperaturas tendem a cair em diversas regiões do país. Mas a presença do fenômeno El Niño promete imprimir características bem diferentes do habitual em várias partes do Brasil, de acordo com o analista de Clima e Meio Ambiente da CNN, Pedro Côrtes.
O inverno ainda está se consolidando
Segundo Côrtes, a estação mais fria do ano ainda está em fase inicial de consolidação. “A gente vai ter uma transição agora no início de julho, mas depois as principais características vão se firmar em agosto e setembro”, explicou o analista. Isso significa que os efeitos mais marcantes do El Niño sobre o inverno brasileiro serão sentidos de forma mais clara a partir do meio da estação.
Centro-Oeste e Sudeste terão temperaturas mais altas
Uma das principais mudanças trazidas pelo El Niño será o aquecimento nas regiões Centro-Oeste e Sudeste. Essa tendência se estende também pelo Nordeste e pela maior parte da região Norte, com exceção do extremo oeste da região Norte, onde as temperaturas devem se manter dentro do padrão esperado.
“A tendência é de um aquecimento de São Paulo para cima, já a partir do mês de julho”, afirmou o analista. Em São Paulo, áreas mais elevadas como a Serra da Cantareira e a Serra da Mantiqueira poderão registrar temperaturas um pouco mais baixas se comparadas ao restante do estado. De maneira geral, porém, a elevação das temperaturas será a marca registrada do inverno nas regiões central e norte do país.
Chuvas intensas no Sul e risco de doenças
As regiões Sul, Centro-Oeste e parte do Sudeste deverão registrar chuvas acima da média durante o inverno. No oeste do Paraná, o volume de precipitação poderá ser ainda mais elevado, o que reforça a necessidade de medidas preventivas contra os efeitos do El Niño. O governo do Rio Grande do Sul já vem adotando esse tipo de providência.
A combinação de temperaturas mais altas com um volume maior de chuvas em áreas do Centro-Oeste e Sudeste cria condições propícias para a proliferação de arboviroses, como dengue, zika, chikungunya e febre amarela, mesmo durante o inverno. “Lembrando que o Aedes aegypti já se adaptou ao ambiente urbano. Então, a gente não pode descuidar dos focos de proliferação desse tipo de mosquito, porque a gente pode ter um recrudescimento dessas doenças mesmo num período de inverno”, advertiu Côrtes. O risco, segundo ele, é maior ao final do inverno e início da primavera.
Seca no Norte e aumento do risco de queimadas
Na região Norte, o cenário é oposto. O período seco tradicional deverá ser mais intenso do que o habitual, com redução significativa das chuvas. As altas temperaturas aliadas à menor precipitação em áreas do Centro-Norte do país aumentam o risco de queimadas. “Essa vegetação mais quente, em áreas onde não vai chover tanto, vai estar mais seca, então isso pode aumentar o número de queimadas nessa região central”, explicou o analista.
O monitoramento do Sistema Cantareira
Côrtes também comentou a decisão do governo de São Paulo de segregar o monitoramento do Sistema Cantareira em relação aos demais reservatórios do sistema integrado metropolitano. O Cantareira é o principal reservatório de abastecimento da região metropolitana de São Paulo, abastecendo 39 municípios e mais de 20 milhões de habitantes.
Depois das crises hídricas severas registradas em 2003-2004, 2014-2016 e em menor escala em 2021, o método de monitoramento foi atualizado para incorporar variáveis climáticas como o El Niño e a La Niña. Mas a nova metodologia ainda apresenta lacunas na avaliação do especialista, que aponta a falta de dois itens importantes, entre eles o período histórico de análise adotado – que vai de 2011 a 2025 – deixando de fora episódios relevantes de El Niño que ocorreram no início do século.
O que esperar dos próximos meses
O inverno de 2026 chega marcado pela influência forte do El Niño, que promete trazer contrastes bem definidos entre as regiões do país. Enquanto o Sul enfrenta chuvas mais intensas e o Norte lida com seca e risco de queimadas, o Centro-Oeste e o Sudeste convivem com temperaturas mais altas que o normal. Cada região terá seus próprios desafios e demandará atenção redobrada das autoridades e da população. A estação mais fria do ano, curiosamente, pode ser lembrada não pelo frio, mas pelos efeitos de um fenômeno que aquece o planeta.
Fonte: CNN Brasil







