Cambará da Sibéria

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Fernando Montoya Cambará.

O começo da viagem tinha sido um pouco triste. A chuva, o frio e a saudade não estavam me ajudando e do que precisava era de uns dias de reflexão para acalmar o espírito. E para isso nada melhor do que Cambará do Sul, no Rio Grande do Sul.

Cambará é a porta para os Parques Nacionais Aparados da Serra e da Serra Geral, o ecossistema que divide Santa Catariana do Rio Grande do Sul e que chega até a super conhecida Serra do Rio do Rastro e Urubici.

O parque é uma joia do sul do país. Ele é obra de um jesuíta com um nome pouco piedoso: Rambo, Padre Balduíno Rambo. A pesar de não ser católico, sou um grande admirador do trabalho humanista de muitos jesuítas: o museu arqueológico da São Pedro de Atacama, as missões jesuítas que protegiam aos guaranis de espanhóis e bandeirantes, fruto de pessoas que achavam que Deus está em todos e que a natureza é obra dele e por tanto sagrada.

O Rambo mais filantrópico do Brasil

O Padre Rambo foi um botânico, escritor, divulgador científico e professor universitário. Lutou para criar o parque estadual, em 1959, e para protegê-lo das madeireiras que devoravam as araucárias (ah, que majestosas as araucárias!). O belo parque conta com mais de 30 mil hectares e vários cânions para visitação. O mais famoso é o de Itaimbezinho, onde se pode se visitar duas trilhas bem diferentes: a do vértice e a do cotovelo. As duas valem a pena, pois o cânion é tão grande e espetacular que as paisagens são bem diferentes.

A pesar de não ser católico, sou um grande admirador do trabalho humanista de muitos jesuítas: o museu arqueológico da São Pedro de Atacama, as missões jesuítas que protegiam aos guaranis de espanhóis e bandeirantes, fruto de pessoas que achavam que Deus está em todos e que a natureza é obra dele e por tanto sagrada.”

A nossa visita coincidiu com o curso de condutores para o parque, um raro privilégio que soube aproveitar, já que me permitiram acompanhar à turma de alunos pelo resto do dia. Nele, o responsável pelo ICMBio (antigo IBAMA) nos contou a história, como é o dia a dia do parque e dos seus guardas e de como o parque nasceu com um problema congênito: os moradores originais nunca foram indenizados e continuam morando dentro dele, cultivando terra e criando gado, tem até uma vila quilombola na base do cânion!!

Uma cidade de novela

Outro dado curioso é que, desde que a emissora Globo filmou algumas novelas neste local – A Casa das Sete Mulheres e Esplendor – o número de visitantes está aumentando vertiginosamente. Só em 2013, 125.729 pessoas visitaram os dois parques, que na prática são geridos como um só.

Fernando Montoya Cambará.

A cidade de Cambará fica a uns 20 km dos parques por estradas de terra bem batida e de fácil acesso. A vila é extremamente tranquila. O sábado a noite não tinha lugar onde escutar uma música ao vivo, nem festa nenhuma, apenas bons vinhos para tirar o terrível frio e lareiras românticas. Nos meses de férias escolares as pousadas estão cheias. Nada a ver com nossa visita, onde ficamos numa cabana com lareira por R$ 75, em uma pousada totalmente vazia. O portão ficava aberto 24 horas por dia, sem ninguém se preocupando com a segurança, ambiente perfeito para esquecer qualquer estresse de um paulista adotivo como eu. Obrigado Cambará!

Na próxima matéria cruzaremos o sul até a divisa com o Uruguai, na absurda cidade do Chui. Até mais!