A importância dos corredores ecológicos na preservação de espécies ameaçadas de extinção

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Uma das principais causas da extinção de espécies é a degradação e a fragmentação dos ambientes naturais, consequência da abertura de grandes áreas para a agricultura e formação de pastagens, expansão urbana, ampliação da malha viária, poluição, formação de lagos para construção de hidrelétricas e a mineração de superfície. São fatores que reduzem os habitats e aumentam o grau de isolamento das populações, diminuindo o fluxo genético entre elas, provocando perda da variabilidade genética e diminuindo a capacidade de sobrevivência dos animais. A endogamia provoca a redução das populações dos animais isolados.

Recuperar um habitat pode ser difícil porque muitas são as causas da degradação, pode ser decorrência do crescimento urbano, da expansão agrícola, ou devido sua utilização para determinadas atividades produtivas ou industriais. Já conectar fragmentos isolados de habitats pode ser uma solução mais simples, pois muitas vezes não implica em grandes demandas territoriais, exige tão somente conectividade e coerência espacial.

Foto: Joop van Houdt/Rijkswaterstaat

Uma das mais importantes estratégias para salvar animais ameaçados de extinção é a formação de corredores de fauna, também conhecidos como corredores ecológicos ou biológicos. Esses corredores são espaços que conectam áreas de importância biológica para diminuir os impactos negativos provocados pela fragmentação dos habitats. Obter a conectividade através desses corredores de fauna é fundamental para manter a diversidade ecológica e garantir a geração de fluxo genético, diminuindo a endogamia das populações, promovendo a colonização e a dispersão da fauna.

Recente estudo publicado na revista “Biological Conservation” no. 224/2018 liderado pela pesquisadora da Universidade Estadual do Norte Fluminense Andreia Magro Morais, identificou que o Mico-leão-dourado sofre com a fragmentação das florestas e tem sua movimentação e fluxo gênico reduzidos. Essa espécie foi quase extinta na década de 1980 quando chegou a ter menos de 400 indivíduos na natureza. Num projeto de conservação que envolveu várias instituições e que contou com apoio internacional se obteve um aumento da população original, havendo atualmente 3200 indivíduos vivendo em liberdade na região.

A pesquisa constatou que os micos-leões-dourados se movem mais frequentemente dentro de seu território e vizinhança por distâncias em torno de 2 km. Mas se a paisagem estiver bem conectada e facilitar seu movimento, eles podem alcançar longas distâncias de dispersão, chegando até a 8 km. O resultado da pesquisa indicou que o manejo realizado pode aumentar a variabilidade genética entre as populações de mico. E que caso as populações permaneçam isoladas, devido à fragmentação do habitat, todos os esforços de conservação terão sido em vão.

O fomento de corredores ecológicos aparenta ser uma das medidas mais efetivas para salvar espécies ameaçadas pela excessiva fragmentação dos habitats devido a expansão urbana. Este fenômeno é particularmente significativo nas áreas de mata atlântica que é um dos biomas que mais sofre devido os efeitos da urbanização. Áreas densamente povoadas provocam intensa fragmentação de habitats prejudicando o natural desenvolvimento de populações, pois ao lhes impor como limites áreas protegidas estas muitas vezes não têm a dimensão adequada para abrigar população significativa de espécies que demandam maior extensão territorial.

O caso das onças pardas no Estado de São Paulo é emblemático, pois se trata de um animal solitário com machos altamente territoriais que necessitam de áreas de trânsito entre 50 a 1000 km2. Seu número vem aumentando e consequentemente sua área de dispersão, o que tem ocasionado vários problemas na relação com a população humana. São inúmeros casos de onças pardas atropeladas, encontradas em quintais de residências, acomodadas em árvores de praças centrais de cidades revelando que durante a noite vagam em busca de alimento ou de acasalamento.

Diante do problema foi implantado em 2011, o Projeto Corredor das Onças de iniciativa do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio, em parceria com a Unicamp e apoio das Prefeituras da região metropolitana de Campinas. Durante esse período de existência, o projeto tem recebido o apoio de empresas que promovem a recuperação de áreas degradadas e contribuem para a recuperação de mata ciliar financiando o plantio de mudas nativas ao longo dos cursos d’água. O corredor além de facilitar o trânsito das onças, favorece outras espécies da fauna da região como sauás, bugios, gatos do mato, jaguatiricas, cachorro do mato, veado-mateiro, pacas entre outros.

O Projeto Corredor das Onças é um exemplo da necessidade de se ampliar a estratégia de corredores de fauna em áreas de abrangência da Mata Atlântica, que é um dos biomas mais fragmentados do país. Além disso, o Projeto mostra ser possível a convivência entre um predador do topo da cadeia alimentar como a onça parda, o segundo maior felídeo das Américas e populações humanas, numa paisagem urbanizada como é a região metropolitana de Campinas, no Estado de São Paulo. A replicação da experiência por outras unidades da federação que possuem remanescentes da Mata Atlântica, pode salvar da extinção espécies altamente ameaçadas como o mico-leão preto no Estado de São Paulo, a onça-pintada no Nordeste e o maior símio das américas, o muriqui do Sudeste.