O Pantanal, a maior planície alagada do planeta com aproximadamente 150 mil quilômetros quadrados distribuídos entre Brasil, Paraguai e Bolívia, está desaparecendo. Um estudo inédito conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em parceria com outras instituições brasileiras revelou uma realidade alarmante: entre 1985 e 2023, o bioma perdeu cerca de 80% de sua água superficial.
A pesquisa, publicada na revista Advances in Space Research, analisou 38 anos de imagens de satélite e dados de precipitação para mapear a variação espaço-temporal dos corpos d’água na porção brasileira do bioma. Os números são devastadores. A área ocupada por água superficial encolheu de 19.781,34 quilômetros quadrados em 1985 para apenas 3.817,65 quilômetros quadrados em 2023, uma redução de 80,7% segundo dados do MapBiomas.
Uma análise que confirma a tendência
Os pesquisadores analisaram imagens dos anos de 1985, 1990, 1995, 2000, 2005, 2010, 2015, 2020 e 2023, gerando 36 mapas que revelaram as variações espaço-temporais no Pantanal brasileiro. A redução da área superficial da água variou entre 69,6% e 81,4%, confirmando uma tendência consistente e preocupante.
Além dos índices de água, a pesquisa avaliou a precipitação usando três outros índices: NDMI (Normalized Difference Moisture Index), ICP (Infrared Percentage Vegetation Index) e SAI (Standardized Anomaly Index). Os dados concluíram que houve redução na umidade do solo, aumento na frequência de eventos de seca e maior irregularidade na distribuição das chuvas.
As chuvas se tornaram impredizíveis
O engenheiro florestal Sérvio Túlio Pereira Justino, doutor pela FCA/Unesp e um dos autores do artigo, descreve um cenário de caos climático. “As chuvas no Pantanal estão muito irregulares. Às vezes chove bem, mas está diminuindo o período de chuvas. Em uma semana chove 300 milímetros, o que era para chover em um mês. Estão diminuindo os dias de chuva e aumentando os dias de estiagem”, afirma.
Justino comenta que o cenário crítico é resultado de uma combinação perigosa de mudanças climáticas e ações humanas. “Além da crise climática, que já reduz as chuvas e compromete a recomposição hídrica do Pantanal, outras ações humanas agravam a perda de superfície aquática, como a alteração da cobertura do solo, a instalação de barragens, o desmatamento e o avanço das atividades agropecuárias”.
O colapso da biodiversidade
O Pantanal abriga cerca de 650 espécies de aves, 150 de mamíferos, 325 de peixes e mais de 2.200 espécies de plantas. A redução da água superficial afeta toda a cadeia alimentar do bioma de forma irreversível.
“A perda de água superficial compromete o equilíbrio ecológico do Pantanal. Os animais de grande porte, que dependem das áreas alagadas para caçar e encontrar alimento, são diretamente afetados. Com menos água, o habitat deles encolhe e a cadeia alimentar se desestabiliza”, explicou Justino.
O pesquisador também alertou para o comportamento dos animais aquáticos. “Os animais aquáticos provavelmente vão migrar para outra região, isso é algo natural quando há estresse. Mas o impacto é gigantesco em toda a biodiversidade”.
Os impactos sociais que ninguém fala
Além dos danos ambientais, a seca do Pantanal afeta diretamente as populações que dependem do bioma. Comunidades tradicionais, pescadores e agricultores familiares enfrentam a impossibilidade de manter seus modos de vida quando a água desaparece.
Justino defende que as políticas públicas devem unir ações ambientais e sociais. “Não sou contra agricultura ou pastagem, mas precisamos de políticas que identifiquem as áreas mais suscetíveis e conscientizem a população para o uso sustentável dos recursos do Pantanal.”
A urgência de agir agora
O pesquisador também mencionou a necessidade de combater os incêndios florestais, que se tornaram mais frequentes e intensos, e de incentivar o turismo ecológico como alternativa econômica que não destrói o bioma.
“O Pantanal é considerado a maior área alagável contínua e de água doce do mundo. A degradação não vai afetar somente o Brasil, mas todo o mundo.” Se o ritmo atual de perda for mantido, o futuro do bioma é incerto. “O Pantanal está num ponto em que ele precisa urgentemente de ajuda. Se continuarmos nesse mesmo ritmo, infelizmente não teremos mais o bioma no futuro”.
Um chamado à ação
A pesquisa não é apenas um alerta científico. É um grito de socorro de um dos ecossistemas mais importantes do planeta. Cada ano que passa, mais água desaparece, mais espécies são ameaçadas, mais comunidades perdem suas raízes. O tempo para agir não é o futuro. É agora.








