A Amazônia continua surpreendendo o mundo com sua importância para o equilíbrio climático global. Um novo estudo do MapBiomas revela dados impressionantes: a região concentra mais da metade (52%) de todo o carbono orgânico armazenado no solo brasileiro. Estamos falando de um verdadeiro tesouro ambiental que pode ser decisivo na luta contra as mudanças climáticas.

O Brasil armazena 37,5 gigatoneladas de carbono orgânico na camada superficial do solo, com uma média de 44,1 toneladas por hectare. Esse número representa um dos maiores estoques de carbono do planeta, funcionando como um gigantesco “aspirador” natural de CO₂ da atmosfera.
Para entender a magnitude desses números, é importante saber que o solo armazena aproximadamente quatro vezes mais carbono que toda a vegetação do planeta e três vezes mais que a própria atmosfera. Quando bem preservado, esse carbono pode permanecer estocado por décadas ou até séculos, ajudando a manter o equilíbrio climático global.

A ciência por trás do armazenamento de carbono

O relatório do MapBiomas, que analisou dados de 1985 a 2024, oferece um panorama único sobre a composição dos solos brasileiros e sua relação com o uso da terra. Alessandro Samuel-Rosa, coordenador do MapBiomas Solo, explica que “no Brasil, a distribuição é marcadamente heterogênea, refletindo a diversidade climática, hidrológica, geológica e ecológica do território”.
Essa heterogeneidade é fundamental para compreender por que diferentes regiões têm capacidades distintas de armazenar carbono. O solo funciona como um arquivo do tempo, acumulando sinais de clima, vegetação e relevo que moldaram o território ao longo da história.
Quando falamos de carbono orgânico no solo, estamos nos referindo a um elemento essencial não apenas para o clima, mas também para a produtividade agrícola. Esse carbono melhora a retenção de água e nutrientes, reduz a erosão e aumenta a fertilidade natural do solo, criando um ciclo virtuoso entre conservação ambiental e produção sustentável.

Mata Atlântica: pequena em área, gigante em densidade

Embora a Amazônia detenha o maior volume total de carbono armazenado, uma descoberta interessante do estudo é que a Mata Atlântica supera a média nacional em densidade de armazenamento, com 53,4 toneladas por hectare. Isso acontece porque o bioma se beneficia de regiões de clima mais frio, como campos de altitude e florestas de araucária, além de áreas úmidas como restingas e mangues.
A Amazônia aparece em segundo lugar com 46,3 t/ha, seguida pelo Pampa com 43,7 t/ha. Esses dados revelam que 35,9% do solo brasileiro estoca entre 40 e 50 toneladas de carbono por hectare, demonstrando o potencial extraordinário do país como regulador climático global.
Na Mata Atlântica, predominam solos com teores de argila superiores a 60%, o que confere maior capacidade de armazenamento de água e retenção de nutrientes. Essa característica permite que o carbono orgânico permaneça estocado por longos períodos, funcionando como uma espécie de “cofre” natural de carbono.

A relação entre uso da terra e armazenamento de carbono

O estudo evidencia padrões claros de ocupação territorial que impactam diretamente a capacidade de armazenamento de carbono. Entre 1985 e 2024, a pastagem se expandiu principalmente sobre solos de textura média e arenosa, perdendo área nas regiões muito argilosas, que foram majoritariamente ocupadas pela agricultura.
Essa informação é valiosa para o planejamento territorial sustentável. A agricultura se desenvolveu preferencialmente sobre áreas com baixa pedregosidade nos primeiros 90 cm de solo, enquanto a silvicultura teve expansão mais expressiva em locais onde a pedregosidade aparece nas camadas superficiais.
Compreender essas dinâmicas é fundamental para desenvolver estratégias que maximizem tanto a produtividade agrícola quanto o armazenamento de carbono, criando um modelo de desenvolvimento que beneficia simultaneamente a economia e o meio ambiente.

O papel dos diferentes tipos de solo

Os dados mostram que solos argilosos, muito argilosos e siltosos possuem os maiores estoques de carbono, frequentemente acima de 50 t/ha em todos os biomas, enquanto os arenosos têm estoque médio de 32 t/ha. Essa diferença está relacionada à capacidade de retenção de matéria orgânica de cada tipo de solo.
No Cerrado, Caatinga e Pantanal, concentram-se áreas com teores de areia acima de 60%, onde a capacidade de retenção é menor e a infiltração de água ocorre de forma mais rápida. Já na Caatinga, o solo se torna progressivamente mais pedregoso a profundidades entre 10 e 50 cm, representando 9% do território brasileiro com mais de 50% de seu volume ocupado por pedregosidade dominante nos primeiros 100 cm.

O carbono como aliado da produtividade

Uma descoberta importante é que o carbono orgânico no solo não beneficia apenas o clima global, mas também a produtividade agrícola. Taciara Zborowski Horst, coordenadora da iniciativa MapBiomas Solo, destaca que “esses mapas das propriedades dos solos brasileiros, como carbono, textura e pedregosidade, permitem avanços nas análises voltadas aos usos agrícolas e urbanos do solo”.
Isso significa que preservar e aumentar o carbono no solo é uma estratégia que beneficia tanto fazendeiros quanto o planeta. Solos ricos em carbono orgânico são mais férteis, retêm mais água e são mais resistentes à erosão, reduzindo a necessidade de fertilizantes químicos e irrigação.

A importância da preservação para o futuro

O estudo revela que quando o solo é degradado por desmatamento ou práticas agrícolas inadequadas, ele libera esse carbono como CO₂, agravando o efeito estufa. Por outro lado, quando bem manejado e preservado, o solo pode continuar armazenando carbono por décadas ou séculos.
Essa descoberta reforça a importância de políticas públicas que incentivem práticas agrícolas sustentáveis e a preservação de áreas naturais. Cada hectare de solo preservado representa uma contribuição significativa para o combate às mudanças climáticas.
Alessandro Samuel-Rosa observa que “a distribuição do carbono orgânico é um exemplo disso. Compreender esses padrões é olhar para o país também pelo que se conserva abaixo da superfície”. Essa perspectiva nos lembra que a conservação vai além do que vemos – inclui também os processos invisíveis que acontecem no subsolo.

Um repositório único de dados

Para os pesquisadores, o repositório de dados criado pelo MapBiomas é um recurso único para localizar rapidamente dados de referência, verificar lacunas de monitoramento e comparar resultados de diferentes regiões brasileiras. Essa ferramenta permite que cientistas, gestores públicos e produtores rurais tomem decisões mais informadas sobre o uso da terra.
O acesso a esses dados é fundamental para desenvolver estratégias regionais específicas que maximizem o potencial de armazenamento de carbono de cada área, respeitando suas características naturais e vocações produtivas.

O Brasil como protagonista climático global

Os dados do MapBiomas posicionam o Brasil como um protagonista fundamental na luta contra as mudanças climáticas. Com 37,5 gigatoneladas de carbono orgânico armazenado apenas na camada superficial do solo, o país possui um dos maiores estoques de carbono do mundo.

Essa posição de destaque traz tanto oportunidades quanto responsabilidades. O Brasil tem o potencial de liderar iniciativas globais de sequestro de carbono, mas também precisa garantir que suas políticas de uso da terra protejam esse valioso estoque natural.

Tecnologia e monitoramento para o futuro

O uso de tecnologia avançada para monitorar o carbono no solo representa um avanço significativo na nossa capacidade de compreender e proteger esse recurso. O MapBiomas utiliza imagens de satélite e algoritmos sofisticados para mapear mudanças no uso da terra e seus impactos no armazenamento de carbono.
Essa tecnologia permite identificar rapidamente áreas onde o carbono está sendo perdido e implementar medidas de proteção antes que os danos se tornem irreversíveis. É uma ferramenta poderosa para a gestão sustentável do território brasileiro.

Construindo um futuro sustentável

A descoberta sobre o carbono armazenado no solo brasileiro nos mostra que a natureza já nos ofereceu uma solução poderosa para o combate às mudanças climáticas. Agora, cabe a nós proteger e potencializar essa solução natural.
Cada decisão sobre o uso da terra, cada política pública implementada e cada prática agrícola adotada pode contribuir para manter ou aumentar esse estoque de carbono. É uma responsabilidade que vai além das fronteiras nacionais, pois o carbono armazenado no solo brasileiro beneficia todo o planeta.
O momento é de agir com sabedoria e urgência. Temos em nossas mãos – ou melhor, sob nossos pés – uma das mais poderosas ferramentas naturais contra as mudanças climáticas. Preservar esse tesouro subterrâneo é preservar o futuro da humanidade.