Novas descobertas de primatas em 2017 e a preservação das florestas

foto de macaco em cima da árvore

A preservação das florestas é fundamental para a proteção dos primatas.

A descoberta de novos primatas sempre atrai atenção especial do grande público e principalmente da comunidade científica, por serem estes os nossos parentes biológicos mais próximos. Dentre estes, os grandes primatas possuem maior proximidade genética com os humanos, são considerados os mais inteligentes dentre os símios e seu comportamento se assemelha em muitos aspectos ao do homo sapiens.

Três novas espécies de macacos foram descobertas no mundo em 2017, sendo uma delas um orangotango, incluído no grupo dos grandes primatas. A descoberta pode ser considerada extraordinária pois há mais de 80 anos não se encontrava uma nova espécie desse grupo, o último foi o Bonobo (Pan paniscus) descrito em 1929.

O novo símio denominado como Orangotango de Tanapanuli (Pongo tapanuliensis) foi encontrado na ilha de Sumatra, Indonésia, e tornou-se a sétima espécie conhecida de grandes primatas juntando-se aos: Orangotangos de Sumatra (Pongo abelii) e Bornéu (Pongo pygmaeus), Gorilas do Ocidente (Gorilla gorila) e do Oriente (Gorilla beringei beringei), o Chimpanzé (Pan troglodytes) e o Bonobo. Uma das características mais conhecidas desse grupo é não possuir cauda, o que os aproxima ainda mais de seus parentes humanos.

A nova espécie de Orangotango já está em perigo de extinção, restando somente 800 indivíduos na floresta de Batang Toru, onde vive. Ele está ameaçado pela construção de estradas ilegais, caça clandestina, comércio ilegal de animais e expansão agrícola.

Outro primata descrito em 2017 está sendo conhecido como Gibão-hoolock Skywalker (Hoolock tianxing), nome dado pelos cientistas que o estudaram por serem fãs da série “Stars wars”. Vivem na selva tropical no sudeste da China e no leste de Myanmar. Sua população total é desconhecida, mas na parte chinesa restam apenas 200 indivíduos. Já pode ser considerada como uma espécie em perigo de extinção devido à crescente perda de seu habitat decorrente da atividade humana e à caça.

O terceiro primata na realidade é uma redescoberta. Trata-se de uma espécie de Parauacu (Pithecus Vanzolini) que não era avistado há mais de 60 anos. O primeiro registro foi feito em 1936, tendo sido visto pela última vez em 1956. Foi encontrado na reserva extrativista Riozinho da Liberdade no Estado do Acre, quase na fronteira com o Peru e divisa com o Amazonas. O registro foi publicado em artigo no Check List- Journal of Biodiversity Data, pelos pesquisadores brasileiros André Valle Nunes e José Serrano-Villavicencio, no número de fevereiro de 2017.

A população do Pithecus Vanzolini é desconhecida, mas sua existência pode ser considerada ameaçada devido ao desenvolvimento regional e o aumento populacional. Por se tratar de um macaco de médio porte, seu encontro revela as dificuldades de identificar a realidade da biodiversidade da região, indicando a possibilidade da existência de novas espécies não descritas pela ciência na região.

A maioria dos primatas depende das florestas, e estas estão sendo ameaçadas pela expansão das atividades humanas. Há uma crescente demanda mundial por produtos que, direta ou indiretamente, afetam as florestas como: madeira, carne, óleo de palma, soja, látex, minérios e combustíveis fósseis. Estudo realizado pelo World Wide Fund for Nature (WWF) estima que a demanda por madeira em 2050 será três vezes maior que a existente.

Na África, a Pan African Sanctuary Alliance (PASA) — Aliança Pan Africana de Santuários —, a maior associação de centros de vida selvagem do continente, estima que cerca de 3000 grandes macacos (gorilas, chimpanzés e bonobos) são perdidos todos os anos para o comércio ilegal de vida selvagem, pela caça ilícita de espécies ameaçadas e para a degradação generalizada do habitat. Em todo o mundo, mais de um terço das espécies de primatas estão ameaçadas de extinção segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

As ameaças são semelhantes em todos os lugares e incluem o desmatamento, a fragmentação de florestas, a caça ilegal para utilização em medicamentos tradicionais ou para a alimentação e o comércio de animais de estimação.  A maior ameaça é o desmatamento florestal em larga escala para a agricultura, a mineração comercial e a construção de barragens.

A melhor forma de proteção dos primatas é a criação de áreas protegidas de florestas que sirvam não somente como habitat para os macacos, mas para limitar os problemas causados pelo efeito estufa e proteger as bacias hidrográficas, entre outros benefícios. A sociedade tem um importante papel não só na abertura de novas áreas protegidas, mas também na manutenção das já existentes.

Um exemplo de mobilização nesse sentido ocorreu em 2017 quando o governo tentou extinguir a Reserva Nacional do Cobre (RENCA) importante área florestal da região norte. A reação de ambientalistas e da comunidade internacional barrou a iniciativa governamental que favorecia as mineradoras. Deste modo manteve-se uma enorme área florestal, do tamanho da Dinamarca que além de proteger e preservar importantes ecossistemas abriga também inúmeras espécies de primatas.

Imagem: istock.com / Photocech

Reinaldo Dias

Doutor em Ciências Sociais e Mestre em Ciência Política pela UNICAMP. É especialista com pós-graduação em Ciências Ambientais pela USF. Foi professor e coordenador de curso em várias instituições de ensino, entre as quais: Mackenzie/SP, USF/SP, UNIP/SP, UNA/MG. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Teoria Sociológica, atuando principalmente nos seguintes temas: Administração, sustentabilidade, política pública, responsabilidade social, gestão ambiental, turismo. Recebeu em 2015 certificado de Menção Honrosa em reconhecimento à excelência da produção científica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem inúmeros livros publicados em sua área de atuação pelas Editoras Atlas, Pearson e Saraiva entre outras.