Cidade do México ganha destaque com gestão ambiental eficiente

Cidades Sustentáveis - Cidade do México

A quinta cidade da série Cidades Sustentáveis, Cidade do México, é a terceira capital mais populosa do mundo segundo a ONU, com um pouco mais de 20 milhões de habitantes distribuídos em 1.485 km² de extensão, ela também já foi considerada a mais poluída do planeta devido à localização geográfica e o alto índice de poluição emitida pelos carros. Durante décadas, a prefeitura buscou melhorias não só na qualidade do ar, mas também em outros setores do desenvolvimento da cidade como transporte, eficiência energética e construções sustentáveis.

A capital do México foi considerada a mais poluída do mundo em 1992, segundo a ONU por três motivos relevantes. O primeiro deles é a concentração das indústrias dentro da região metropolitana. O segundo é devido aos carros da época não possuírem catalisador, sistema que regula os gases tóxicos emitidos, pois dessa forma os veículos jogavam no ar grande quantidade de chumbo, substância que é resultado da queima da gasolina. O terceiro é a localização da cidade, por estar a 2.200 metros de altitude, os níveis de oxigênio nesta altura são baixos, o que gera maior densidade da camada de poluentes que pairam no ar.

As principais causas para que fossem criadas medidas que visam a melhoria de vários aspectos da capital mexicana estavam diretamente relacionadas à saúde da população e a qualidade do ar. Para amenizar estes impactos ambientais, em 2007 o governo municipal lançou o “Plano Verde” que pretende, até 2021, atuar com 26 estratégias em 113 estruturas da cidade, dentre elas na revitalização de espaço público, tratamento de água, mobilidade, qualidade do ar, resíduos sólidos, mudanças climáticas, eficiência energética e conservação do solo.

Um dos objetivos principais do “Plano Verde” é reduzir as emissões de CO2 em cerca de 4,5 milhões de toneladas por ano. Grande parte tem origem no sistema de transporte público, que contribui com 1,8 milhão de toneladas anualmente.

Redução da poluição do ar

Rodízio de carros Cidade do méxico

Implantação do rodízio de carros. Foto: jie.itaipu

Com o objetivo de intensificar as ações ambientais para resolver a questão da poluição do ar, o “Plano Verde” colocou em prática um projeto de rodízio de carros que já tinha começado em 1992. Pelas ruas da Cidade do México é proibida a circulação em dois dias da semana e no sábado das 05h às 22h.

Há 20 anos a prefeitura já trabalhava para driblar os efeitos dos gases poluentes. Por isso criou a inspeção veicular, sistema de análise que verifica as condições de emissão de poluentes.

Ainda para amenizar a demanda de poluentes vindas da frota de mais de 10 milhões de veículos pela cidade, uma das alternativas criadas veio por parte do governo federal, que elaborou leis ambientais para diminuir os gases do efeito estufa até 2020, em cerca de 30%.

Dentro das ações de desenvolvimento sustentável, surgiu em 2008 o Programa de Ação Climática da Cidade do México para analisar como as práticas humanas afetavam o clima local. Em novembro de 2010 apareceram os primeiros resultados positivos. O prefeito Marcelo Ebrard, também presidente do Conselho de Mudanças Climáticas, fez mais de 200 cidades assinarem um documento que firma acordo referente à divulgação das emissões de poluentes e o compromisso de trabalharem para reduzi-las.

Mobilidade urbana

Ciclovia Cidade do México

Ciclovias na Cidade do México. Foto: au.pini

Para incentivar a prática de esportes e diminuir os índices de gases poluentes provenientes dos veículos, o governo investiu em mobilidade urbana com uma estrutura adequada para as bicicletas. Ao todo são 100 km de ciclovias permanentes pela Cidade do México. Aos domingos, boa parte das ruas do centro viram ciclovias e o número sobe para mais 24 km de área própria para pedalar.

Para Pedro Camarena, arquiteto e especialista em mobilidade urbana na Cidade do México, segundo entrevista concedida para o Jornada Ecológica, “o governo deve estabelecer a infraestrutura para o ciclismo em diferentes áreas para que cidadãos comecem a acreditar na mudança e assim participar mais”.

Na cidade também funciona, desde fevereiro de 2010, outro projeto de mobilidade urbana, o Ecobici, sistema de empréstimo de bicicleta criado pela prefeitura. Para usar o serviço é preciso se cadastrar no site do programa e pagar uma tarifa inicial equivalente a R$ 28 reais. Depois que o sistema identificar o pagamento e o cartão chegar na residência do usuário é só se dirigir as várias estações pela cidade para começar a usar as bicicletas.

Ecobici

Sistema de compartilhamento de bicicletas Ecobici. Foto: qcom

A iniciativa das ciclovias e inclusão das bicicletas como meio de transporte da metrópole rendeu o Prêmio de Transporte Sustentável 2013 pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP, em inglês) dos Estados Unidos, órgão que analisa os projetos de transporte das cidades ao redor do mundo. Na edição do ano passado o mesmo prêmio foi compartilhado pelas cidades de Medellín, na Colômbia e São Francisco, nos Estados Unidos.

A capital mexicana também investiu em transporte coletivo com a criação do Metrobus, ou BRT (Ônibus de trânsito rápido, em inglês), que custou aos cofres públicos o valor de mais de US$ 2 bilhões na expansão do projeto. Cada viagem neste meio de transporte sai no valor de $ 16 pesos mexicanos, cerca de R$ 2,82.

Metrobus

Metrobus da Cidade do México. Foto: embarqbrasil

No setor de transporte foi realizada uma expansão de 350% do sistema de mobilidade urbana com a criação de novas linhas e a modernização de 84 mil taxis e micro-ônibus. De um modo geral, as iniciativas favoreceram o avanço de forma integrada.

Aquecimento solar

Os prédios públicos da cidade buscam a certificação LEED através da implantação de aquecimento solar. As medidas de eficiência energética como a troca das lâmpadas incandescentes por fluorescentes mais econômicas também fazem parte do “Plano Verde”.

Política de Resíduos Sólidos

Outra meta do “Plano Verde” está ligada à política de resíduos sólidos, que estabelece normas para a reciclagem. O incentivo ao gerenciamento de embalagens e materiais recicláveis e a utilização de produtos biodegradáveis e/ou recicláveis são para minimizar os impactos no meio ambiente. A medida também prevê reciclar no mínimo 79% dos resíduos. Por isso mais usinas de reciclagem serão construídas e a inserção de campanhas de educação ambiental nas escolas e meios de comunicação estão no projeto.

Separação do lixo

Foto: razon

Casas construídas com plásticos

No México, mais de 4.500 toneladas de plásticos são descartados e cerca de 90% dos resíduos sólidos vão parar nos lixões, segundo informações do portal de notícias Último Segundo. Para dar um destino útil aos materiais recicláveis, uma empresa de reciclagem de Guadalajara – município ao noroeste da Cidade do México – recicla 40 toneladas de resíduos em placas plásticas que podem ser usadas na construção sustentável.

O material pode ser transformado em placas usadas na construção de casas populares para abrigar 50% da população mexicana. Uma pequena casa de 55 metros quadrados sai no valor de R$ 10 mil.

Eficiência energética

Uma das diretrizes do “Plano Verde” é tratar o lixo orgânico como fonte de energia. O projeto ainda pretende usar 85% desse material orgânico na produção de eletricidade através da queima de biomassa.

Segundo informações do portal El Economista, em setembro de 2012, Fernando Aboitiz, chefe do Ministério das Obras e Distrito Federal – órgão que administra o lixão Bordo Poniente –, disse que são investidos US$ 450 milhões anualmente para levar os resíduos para outros aterros e tentar reaver a proposta feita pelo governo municipal em 2011, de fechamento do lixão. Entretanto, o Bordo Poniente atua na esfera de produção de biogás na cidade. O lixão é responsável por produzir 80 milhões de toneladas de lixo anualmente, e consequentemente, milhões de metros cúbicos de gás metano. Para o colunista José Tamargo, do jornal El Universal, da Cidade do México, o gás pode ser usado em outros serviços públicos da cidade, sendo uma alternativa para mitigar o impacto ambiental do lixão na cidade.

Aterro de Bordo Poniente

Aterro de Bordo Poniente. Foto: razon

Áreas verdes

Bosque de Chapultepec

Bosque de Chapultepec. Foto: Uol

A capital mexicana também investiu na expansão e revitalização dos parques e, atualmente, as áreas verdes correspondem a 42% do total do município, dentre eles estão o Alameda Central e o Plaza Tlaxcoaque.

Para contribuir com o ar mais limpo na atmosfera, a prefeitura também vai implantar jardins nos telhados de prédios e residências. A meta é alcançar nove metros de área verde por morador.

Atualmente o governo da capital plantou mais de 16.000 m² de jardins nas coberturas de seus edifícios. Desde 2011, para incentivar os cidadãos a fazerem o mesmo, é oferecido 10% de desconto no IPTU (imposto sobre a propriedade predial territorial urbano) para que os moradores criem terraços verdes nas suas casas.

Perto do centro da Cidade do México existe um enorme jardim vertical com 55 mil plantas, que são responsáveis por produzir oxigênio e ajudar a reduzir os índices de CO2, gás metano e outros poluentes emitidos pelas indústrias e veículos.

Jardim Vertical

Jardim vertical no centro da Cidade do México. Foto: ressoar

Educação ambiental em segundo plano

Ecobici

foto: qcom

A Cidade do México mostrou que o empenho de políticas públicas para salvar o meio ambiente gera resultados a longo prazo. Foram necessárias quase duas décadas, desde 1992, para o governo entender a necessidade de planos emergentes ligados à sustentabilidade. Ciclovias, bicicletas de aluguel, telhados verdes e casas de plástico ilustram as iniciativas que deram certo.

Entretanto, no meio de tanta novidade, a implantação dos conceitos de educação ambiental ficou um pouco esquecida, o que não deveria fazer parte do cenário, pois para tornar uma cidade sustentável é preciso que a sociedade também esteja integrada na responsabilidade ambiental e saiba usar com consciência os recursos naturais do planeta.

A ideia que a Cidade do México vendeu foi de que a tecnologia dá um jeito para tudo, sem que o cidadão precise compreender sobre a vida útil dos recursos naturais. Uma alternativa para fazer com que a sociedade passe a adotar medidas sustentáveis no seu cotidiano é investir em planos de educação ambiental, com o objetivo de criar uma conscientização ecológica prolongada, que não dependa das facilidades oferecidas pelos diversos métodos atuais de gestão ambiental.

A Cidade do México conseguiu contornar o problema da poluição do ar com medidas inteligentes e simples. Confira, no dia 23 de outubro, a história de mais uma cidade sustentável que conseguiu transformar o rio, antes totalmente poluído, em um local de lazer em que é possível pescar salmão em sua água límpida. 
Ingrid Araujo

Jornalista formada desde 2010, atualmente redatora do Pensamento Verde, escrevendo matérias relacionadas à preservação do meio ambiente e sobre sustentabilidade. Atuou como Diretora do Centro de Formação de Condutores e Educadora de trânsito, lecionando nas matérias de Legislação de Trânsito, Meio Ambiente e Cidadania.