Aquecimento global aumenta o risco de extinção de espécies

O aquecimento global pode desencadear a perda do habitat de alguma espécies devido a destruição do ecossistema.

As mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global podem ser consideradas a pior ameaça que a humanidade enfrenta. E deixam mais evidentes as consequências do impacto humano na natureza.

A preocupação com este problema provocou a necessidade da assinatura, por 195 países, do Acordo de Paris em 2015. Os governos acertaram manter o incremento da temperatura média mundial abaixo de 2º C em relação aos níveis pré-industriais e redobrar os esforços para limitá-lo a 1,5º C. Como preparação para a Conferencia de Paris, os países apresentaram planos gerais nacionais de redução de emissões de gases que provocam o efeito estufa para atuarem contra as mudanças climáticas.

Apesar dessas medidas, os dados mostram que não houve uma redução significativa das emissões de gases nocivos. Em alguns casos, como ocorre no Brasil, houve aumento de 9% entre 2015 e 2016, segundo estudo divulgado pelo Observatório do Clima em outubro de 2017. O país se encontra na sétima colocação entre os maiores poluidores do planeta, abaixo da China (23,7%), Estados Unidos (12,9%) e União Europeia (7,4%).

O aquecimento global e outros impactos provocados pela ação do homem na natureza, assim como a perda do habitat de algumas espécies devido a destruição de ecossistemas, a contaminação do meio ambiente e a caça indiscriminada, estão provocando a sexta extinção em massa. A pesquisa foi divulgada em maio de 2017 na publicação Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e mostra que esta extinção em massa em curso está associada à destruição humana dos habitats animais, causada por fatores diretos (como a caça) e indiretos (como o aquecimento global).

Outro artigo publicado na revista Science Advances, de janeiro de 2018, relaciona as mudanças climáticas aos eventos de mortalidade em massa (MME – Mass mortality events, em inglês) de animais. No artigo, o professor Richard Koch, do Royal Veterinary College de Londres, relata a devastação ocorrida em 2015 na população do antílope Saiga (Saiga tatarica) no Cazaquistão. Naquele ano, cerca de 200 mil Saigas, já criticamente ameaçados de extinção, morreram e suas carcaças ficaram distribuídas uniformemente em mais de 20 quilômetros quadrados.  Esse número representa cerca de 60% da população mundial desses animais.

Muitos antílopes eram mães que se dirigiram à região para o período anual de parto, enquanto outros eram seus descendentes: alguns com somente dias de vida.

Os Saigas foram vítimas de um MME, um único incidente catastrófico que elimina um grande número de indivíduos de uma única espécie em curto período de tempo. Os MMEs estão entre os eventos mais extremos da natureza. E, de acordo com os cientistas que assinam o artigo, os MMEs estão aumentando e provavelmente se tornarão mais comuns devido às mudanças climáticas.

Os cientistas identificaram a contaminação do sangue como a causa da mortalidade e concluíram que o agente causador é uma bactéria que normalmente vive inofensivamente nas amígdalas da maioria dos antílopes Saiga. O estudo concluiu que o aumento da temperatura ambiente para 37° C, associado à elevação da umidade do ar superior a 80%, estimulou o crescimento do número de bactérias que passaram para a corrente sanguínea, causando septicemia hemorrágica.

A ligação entre as mudanças climáticas e os MMEs tem se tornado mais evidente. O evento também ocorreu com um tipo de morcego australiano, as raposas voadoras (gênero Pteropus). Esses animais estão bem adaptados aos verões australianos normais, mas em temperaturas acima de 40° C eles são incapazes de regular a temperatura corporal e podem morrer de superaquecimento. Em apenas um dia quente de 2014, foram mortas 45 mil raposas voadoras. Algumas colônias tinham mais cadáveres do que morcegos vivos.

Outro estudo, publicado na PNAS em janeiro de 2015, revelou que eventos como esses que atingiram o Saiga e as raposas voadoras parecem estar crescendo em número. Segundo um dos autores do estudo, Adam Siepielski, há alguns eventos de mortalidade em massa diretamente relacionados a ondas de calor extremo ou a intervalos de frio. Em outros casos, pode haver mudanças indiretas, em que alterações de temperatura causam doenças mais comuns que levam aos episódios de MMEs.

O professor Richard Koch destacou no The Guardian (28/02/ 2018) que as mudanças climáticas levarão a mais MMEs, tornando espécies vulneráveis mais próximas da extinção e modificando a cadeia alimentar. Ele afirmou que “a tragédia é que provavelmente veremos mais eventos como aquele que afetou o Saiga”. Segundo ele, se tivermos uma mudança nas condições ambientais, tudo que se desenvolve nesse ambiente particular está sob diferentes pressões. A verdadeira preocupação está em que “os micróbios se adaptam e podem responder às mudanças rapidamente, mas os mamíferos levam centenas de milhares ou milhões de anos para se adaptarem”.

Os estudos têm mostrado que o aquecimento global é um fator cada vez mais importante relacionado com a sobrevivência das espécies. O problema é que se tornarão cada vez mais frequentes os eventos climáticos ligados à mortalidade em massa de animais.

Imagem: Coldimages / iStock / Getty Images Plus

Reinaldo Dias

Doutor em Ciências Sociais e Mestre em Ciência Política pela UNICAMP. É especialista com pós-graduação em Ciências Ambientais pela USF. Foi professor e coordenador de curso em várias instituições de ensino, entre as quais: Mackenzie/SP, USF/SP, UNIP/SP, UNA/MG. Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Teoria Sociológica, atuando principalmente nos seguintes temas: Administração, sustentabilidade, política pública, responsabilidade social, gestão ambiental, turismo. Recebeu em 2015 certificado de Menção Honrosa em reconhecimento à excelência da produção científica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem inúmeros livros publicados em sua área de atuação pelas Editoras Atlas, Pearson e Saraiva entre outras.